Ele esteve sempre comigo. Mas já não estava
Há seis meses estava a procurar casas à beira-mar. Hoje escolho como sobreviver todos os dias, no presente. O fim da minha relação não começou no dia em que ele saiu de casa. Começou no dia em que ele se afastou no sofá!
Se falassem comigo há seis meses atrás, dir-vos-ia que não podia estar mais feliz. Estava noiva, planeava trocar o meu apartamento por uma moradia ao lado da praia, e ter o terceiro filho dentro de 1 ou 2 anos. Nada fazia prever o cenário em que me encontro agora. Divorciada, a viver sozinha com dois filhos, de 1 e de 4 anos, com a certeza de que já não vou ao terceiro, nem viver numa moradia. A minha família de sonho já não existe. Acabou.
Perdi o amor da minha vida.
O meu melhor amigo.
O pilar do meu núcleo durante os últimos 15 anos.
Não sei quando é que ele partiu, para onde foi, ou onde é que ele está. Não sei sequer se foi real. Aquilo que sei, é que o que outrora me preenchia e completava, já não existe. Que a pessoa com quem partilhei a minha vida ao longo dos últimos anos, e por quem dava e fazia tudo, já não está cá.
Muito resumidamente, e com a certeza de que em breve deverei escrever e explorar com mais detalhe cada um destes temas, digo-vos aquilo que sei, com o coração desfeito e olhos inchados de quem já não consegue chorar mais:
Em março de 2025, tinham os meus filhos 4 meses e 3 anos, fui pedida em casamento pelo amor da minha vida, e única pessoa a quem me entreguei e com quem estive. Planeávamos ter 3 filhos e por isso gostávamos de ter uma casa maior, e trocar o nosso pequeno T3 no centro da cidade por uma moradia ao lado da praia, um pouco mais longe.
No verão, começámos a ver casas e decidimos para onde queríamos ir, ainda que sem data definida. “Um dia”. Entretanto, falámos em começar a tentar ter o terceiro filho. O meu namorado estava pronto para voltar a ser pai. Eu preferi adiar isso um bocadinho mais. O nosso filho mais novo ainda dava bastante trabalho, precisava muito de colo, e o meu corpo ainda estava em recuperação.
Umas semanas depois, em setembro, comecei a sentir o meu namorado diferente… mais ansioso, triste, apático, fechado. A vida no último ano não foi um conto de fadas, sobretudo para ele, que perdeu algumas das pessoas de quem mais gostava para a morte, o trabalho que nos ia proporcionar uma estabilidade económica maior, e ainda teve de lidar não só com vários meses no desemprego sem perspetiva de futuro, como com vários problemas da mãe e do irmão de quem era mais próximo. Associei o estado dele a este conjunto de coisas, aliado ao cansaço que é ter um bebé com menos de 1 ano em casa, e um irmão 3 anos mais velho que exige de nós um monte de energia extra quando já estamos prestes a ficar sem bateria. Até que um dia, depois de adormecer os miúdos, me sentei ao lado dele no sofá e, assim que me sentei, senti os músculos dele se retraírem e o corpo dele a afastar-se um pouco. Tentei dar-lhe um beijo, mas virou-me a cara.
No fim de semana anterior o nosso filho mais velho tinha tido a festa de aniversário de uma amiga, e ele não quis ir, como era habitual. Achei que estava cansado, e fui sozinha com os dois miúdos. Naquele dia, o dia do sofá, estranhei. O meu coração disparou. Perguntei-lhe o que é que se estava a passar, porque claramente não era aquilo que eu achava. Ele disse-me que estava “bloqueado” em relação a mim. Que havia várias coisas na minha personalidade com as quais ele não se identificava e com as quais foi lidando nos últimos anos, mas já não conseguia mais. Que não se via numa relação amorosa comigo. Que precisava de espaço e de tempo. Que se sentia mal e ansioso.
Perguntei-lhe se estava assim só por minha causa, ou se era uma acumulação de tudo o que mencionei em cima. Disse-me que era só por minha causa. Naquele momento caiu-me o mundo em cima. Não estava, de todo, à espera daquilo. Ainda para mais, quando eu não mudei em nada a minha personalidade do início do ano até aquele momento. Dei-lhe espaço, quando outrora não daria. E isto é uma aprendizagem que vamos fazendo ao longo dos anos. Procurei logo um psicólogo porque não estava pronta para lidar com aquela situação. E esperei.
Tinha comprado bilhetes para ver um concerto com ele, e planeava deixar, pela primeira vez, os nossos dois filhos com alguém, para termos um momento a sós. Por isso decidi esperar até esse momento para ver em que pé estávamos. No dia do concerto, ele não quis ir comigo. Saí de casa sozinha, e decidi esperar até aos anos dele. Não quis festejá-los comigo, em família. Fez planos que não me incluíam. Continuei a esperar. Desta vez seriam apenas mais duas semanas. Até aos meus anos. Convidei-o para almoçar comigo nesse dia. Não quis. Almoçou em casa sozinho. O que me salvou da tristeza no meu aniversário foi o meu melhor amigo, que apareceu cá em casa com a filha e um ramo de flores e me levou a almoçar fora, com ele, a filha mais velha, a minha afilhada e a mãe delas.
O ambiente em casa estava estranho. À frente dos miúdos era como se nada se estivesse a passar. Quando eles não estavam, era diferente. Muito triste. Ele isolava-se num compartimento da casa onde eu não estava e não havia diálogo. O meu psicólogo disse que ele era um filme mudo e que não era saudável para ninguém viver tanto tempo “à espera” de respostas. Que devia ir tentando falar com ele, não para exigir uma resposta em relação ao que queria ou pressionar, mas para ele saber como é que eu me estava a sentir. Tentei. Falámos. A situação era a mesma e ele continuava bloqueado. Sem querer falar, sem querer fazer terapia de casal ou outra coisa qualquer que nos pudesse ajudar, e sem querer participar de planos a 2 ou a 4. Continuava confuso e a dizer que as coisas entre nós já não estavam bem há imenso tempo. E estendeu esse sentimento a muito antes de setembro. Não entendi. Concordei que do meu lado, depois do nascimento do nosso segundo filho, voltou a existir um distanciamento entre nós, que deixámos de partilhar por alguns meses momentos de maior intimidade, ou de fazer coisas a dois. Já tinha acontecido isso com o nosso primeiro filho, e, portanto, do meu lado, estava tudo bem e esse distanciamento era normal, e jamais se poderia justificar com falta de amor. Do lado dele, as coisas não eram bem assim. E demorei imenso tempo a perceber o que ele dizia.
Continuei a acreditar que ele estaria assim não só por minha causa, mas por tudo o que a vida dele tinha mudado ao longo dos últimos meses. E por isso escolhi ficar. E continuei à espera que ele tomasse uma decisão em relação ao que queria fazer, com a certeza de que, do meu lado, de tudo faria para “salvar” a nossa relação e a nossa família como a conhecíamos. Pelo meio, perguntei-lhe algumas vezes se estava melhor e se já tinha mais claro aquilo que sentia. A resposta era sempre a mesma, pelo que deixei de perguntar. E passei a viver no limbo durante uns meses, porque já não aguentava ouvir aquelas palavras.
No natal, fizemos o que costumávamos fazer todos os anos. Fomos para casa dos meus pais uns dias, passámos o dia 24 com a minha família e fomos no dia 25 ter com a família dele. Alguns comportamentos dele fizeram antever o pior, mas foquei-me, mais uma vez, no presente e naquilo que podia fazer naquele dia. Estava numa fase em que era demasiado doloroso pensar no passado, porque rapidamente o meu coração transbordava em saudades de algo que talvez não fosse existir nunca mais, e em que pensar no futuro também não era uma opção, porque naquele instante era algo que eu não controlava e isso causava-me imensa ansiedade.
Fomos passar a passagem de ano a casa de um amigo meu. Ele esteve sempre comigo, apesar de não estar. Quando voltámos para a nossa casa senti algo pela primeira vez: não queria voltar. Queria ficar ali, junto da minha família, na terra que me viu crescer. Vinha a conduzir e esperei que os nossos filhos adormecessem. Não durou muito até isso acontecer. A seguir desabei. Comecei a chorar. Partilhei com ele o que estava a sentir e admiti que pela primeira vez, em muitos anos, não me apetecia voltar para a nossa casa, onde apesar de viver com ele e com os nossos filhos, me estava a sentir completamente sozinha e desamparada. Que me apetecia continuar ali em casa dos meus pais, rodeada de família e amigos, que de alguma maneira conseguiram, naqueles dias, trazer-me alguma normalidade e sentimento de “casa” e de “pertença” de volta.
Disse-lhe que esperava que ele tivesse alguma coisa para me dizer em breve porque já não aguentava viver naquele limbo muito mais tempo. Ele disse que falávamos outra altura. Que estava a conduzir e não era o momento. Respondi-lhe que nunca era o momento e que estava a ficar mesmo cansada de esperar, e que podia falar. Que se não me sentisse bem para conduzir, era a primeira a encostar o carro. Mais uma vez, ele não quis. E, portanto, pedi-lhe apenas que me respondesse com sinceridade a duas perguntas. Depois disso não lhe ia dizer mais nada sobre o assunto, e ia esperar que ele viesse falar comigo, quando quisesse.
As minhas pernas tremiam com medo das respostas dele. Ainda assim, não hesitei. E perguntei-lhe: “só estás comigo por causa dos miúdos?”. A resposta dele foi “não”. A seguir, com as pernas a tremer um pouco mais perguntei “ainda gostas de mim?”. A resposta dele foi imediata: “sim, claro”. Confesso que tendo em conta os últimos meses não eram as respostas que esperava ouvir. Mas a verdade é que senti um alívio enorme. E por isso disse-lhe que esperava, sinceramente, que em 2026 conseguíssemos superar aquilo, que ia tentar mudar algumas das coisas que sabia que não lhe encaixavam, e que depois então terminávamos a conversa outra altura, no tempo dele, e ia ficar tudo bem.
Chegámos a casa, e no dia a seguir o nosso filho mais novo, já com 1 ano, ficou doente. Não foi à escola. Nesta altura ele já tinha encontrado trabalho. Tinha começado há pouco tempo. E por isso, apesar de estarmos os dois a trabalhar a partir de casa, fiquei eu a tomar conta do nosso bebé enquanto ele trabalhava. Tenho um trabalho mais flexível. Não passaram dois dias e, enquanto dava almoço ao nosso filho, ele veio ter comigo e perguntou-me se podíamos acabar a conversa que estávamos a ter no carro. Nem queria acreditar. A minha espera tinha terminado!
Aquela não era a altura ideal para mim. Estava a dar almoço ao nosso filho, e o miúdo estava em casa. Significava que íamos ter uma conversa daquelas pela primeira vez à frente de um dos nossos filhos (nunca discutimos ou falámos sobre estas coisas à frente dos miúdos – coisa de que tenho bastante orgulho). E eu ia ter uma reunião de trabalho dali a duas horas. Ainda assim, não podia esperar mais. Despachei-me a dar o almoço ao miúdo, peguei nele e fui para a sala, onde já estava o meu namorado sentado no sofá. Sentei-me no chão a brincar e a entreter o nosso filho enquanto o ouvia, com o coração acelerado e o corpo todo a tremer. Confirmou-se aquele que para mim era o pior cenário, e o meu maior pesadelo ganhou vida. Depois de 15 anos juntos, 2 filhos e 1 casa, ele decidiu separar-se, e terminar oficialmente a relação que, no fundo, já tinha acabado em setembro. Passados 3 dias saiu de casa, e com ele levou o amor da minha vida, o meu melhor amigo, e o pilar do meu núcleo durante os últimos 15 anos.
Do meu lado, fiz tudo o que podia. Por ele, e por nós. Amei com tudo. Acompanhei, cresci, mudei, melhorei, escolhi ficar sempre que as coisas tremeram e fui sempre honesta e transparente, com tudo o que tenho de melhor e de pior. Não sobrou uma única prova de amor para dar, a não ser deixá-lo ir se realmente era essa a sua vontade.
Naquele momento, liguei ao meu chefe a explicar a situação e a cancelar a reunião que ia ter. O meu mundo desabou. Fiquei sem chão. Os meus olhos, que choravam todos os dias há cerca de 4 meses, voltaram a encher-se de lágrimas. A minha garganta e o meu peito bloquearam-se com um nó demasiado doloroso para tolerar. Mandei logo uma mensagem ao meu psicólogo a pedir para marcar uma nova consulta assim que conseguisse. Fumei uns 3 ou 4 cigarros de seguida. Fui à casa de banho lavar a cara e voltei para o meu filho. De rastos, destroçada, mas com um sorriso no rosto de quem não podia parar. Brinquei muito. Depois fui buscar o mais velho à escola. Ajudei nas rotinas dos dois até adormecerem e, a seguir, fechei-me num quarto, deitada no chão em posição fetal a chorar. Não tardou a que não conseguisse abrir os olhos de tão inchados que estavam. Acalmei passado algumas horas. Foi a pior quarta-feira da minha vida. O pior dia por que passei desde que me lembro de existir. E eu não vi aquilo a aproximar-se. Nada fazia prever este cenário, sobretudo depois de ter tido filhos. E, no entanto, os sinais estavam todos lá…

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