Hoje é um dia difícil

Hoje tenho saudades tuas. E não são poucas. São tantas! Saudades silenciosas, daquelas que já não posso partilhar, mas que conseguem encher uma casa inteira.

Os pássaros cantam lá fora e parece quase cruel a forma como tudo soa tão vivo enquanto cá dentro há um vazio tão grande e um silêncio quase ensurdecedor. Nós trabalhávamos aqui juntos. Dois portáteis. Duas chávenas de café. Olhares trocados ao longe…. Estava tão habituada à tua presença que nunca imaginei que teria de aprender a viver também com a tua ausência.

Agora caminho de divisão em divisão sem saber muito bem o que fazer comigo mesma. Limpo coisas que já estão limpas e mudo objetos de sítio só para sentir algum movimento. Mas a verdade é que, por muito ocupadas que estejam as minhas mãos, a minha mente insiste em voltar para ti.

Não sei como é que, de repente, nos tornámos dois estranhos. Não sei como é que é possível alguém que era da minha família, o meu melhor amigo, o amor da minha vida, sentir-se agora tão distante.

É um tipo de luto estranho este, o de perder alguém que continua vivo. E talvez ainda mais estranho seja olhar para uma pessoa e perceber que a versão que amamos já não existe. Ou talvez até nunca tenha existido, pelo menos da forma como acreditávamos.

Ultimamente têm-me perguntado se ainda estou apaixonada por ti. Claro que sim. O amor não se apaga de um dia para o outro. Não desaparece só porque uma das pessoas decide partir. Ele fica. Ecoa. Senta-se à mesa de jantar que escolhemos juntos, na casa que comprámos os dois, e lembra-me de tudo aquilo que construímos.

Eu não escolhi este fim. Eu teria lutado. Eu teria ficado. Mas a verdade é que não podemos ficar onde não somos desejados. Não se mantêm relações a solo. E, às vezes, amar alguém também é aceitar que essa pessoa já não nos escolhe.

E por isso aqui estou eu. A aprender a sentar-me no silêncio. A aprender a estar sozinha em espaços que foram pensados para dois, para nós os dois. A aprender que sentir a tua falta e aceitar a tua decisão podem existir ao mesmo tempo.

Hoje é um dia difícil.

Mas mesmo nos dias difíceis, sei que tenho de sobreviver a isto. Tenho de me reconstruir. Não por nós, mas por mim. E pelos nossos filhos, que serão sempre a razão pela qual nunca me arrependerei dos quinze anos que partilhámos.

E, talvez um dia, este silêncio já não doa tanto!

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