“Esqueceste-te de ti”

O dia em que quase me perdi e o meu filho me encontrou

Há uns dias acordei mesmo triste. Daquela tristeza pesada, que não passa com café nem com distrações. Levantei-me em piloto automático e fiz tudo o que tinha a fazer. Mas nada parecia chegar.

Abri a persiana do quarto devagar, só o suficiente para ver os corpos pequeninos dos meus filhos, encostados um ao outro, a dormir profundamente. Voltei para a cama com eles. Acordei-os como faço desde que nasceram – com beijos, abraços e uma música baixinha a tocar. Desta vez “Blessings”, dos Hollow Coves. Sorri. O meu coração estava cheio. E, ao mesmo tempo, partido.

O resto da manhã passou-se como sempre. Entre fraldas, roupa, pequeno-almoço, mochilas, brincadeiras e correria. Deixei um na creche e outro no jardim de infância. Depois voltei para casa. O silêncio caiu de repente. E pesou. Tentei ocupar-me. Comi qualquer coisa. Trabalhei. Arrumei a casa e liguei a televisão que fez companhia ao vazio.

Vesti uma roupa mais bonita. Olhei para mim ao espelho e tentei encontrar-me, mas não estava lá.

Nesse dia, o buraco que ficou no meu coração desde que o meu ex saiu de casa subiu-me garganta acima, e nada do que fazia parecia acalmar a sensação de sufoco.

À tarde fui buscar os miúdos. Quando chegámos a casa, como sempre, transformei-me em tudo o que eles precisavam: um jogador de futebol, um dinossauro, um monstro das cócegas, um super-herói. Rimos. Brincámos. Dançámos em rodinha de mãos dadas ao som do “malhão”. Cantámos os parabéns a um panda, e fomos os três a marchar para o quarto.

Na cama, alinhei três almofadas. Uma para mim. Duas para eles. O mais novo apontou para a minha e disse “mamã”. Deitei-me com eles.

Enquanto o mais novo adormecia no meu peito, contei uma história ao mais velho. Desta vez do Tom and Jerry. “Uma história de boca, e não de livro”, como ele gosta. Inventada. Única. Só nossa.

Depois, no meio do escuro e do silêncio, uma mão pequenina procurou a minha. Agarrou-a com força e, por momentos, a solidão desapareceu.

Quando achei que já estavam os dois a dormir, ouvi a voz do meu filho mais velho:

“Mamã, quem são as tuas quatro pessoas favoritas no mundo?”

Respondi-lhe: “Tu, o teu irmão, o avô e a avó (meus pais)”.

Ele disse logo: “estás a esquecer-te de alguém”.

Pensei no pai. Corrigi-me. E disse: “pois foi. Do papá! Mas só me pediste para dizer quatro. A mãe também gosta muito do pai”. Achei mesmo que era nele que estava a pensar. Mas ele respondeu:

“Não, mamã. Esqueceste-te de ti!”

Parei. “Tens de gostar de ti também. Repete. Quem são as quatro pessoas que gostas mais. Tu e mais quem?”.

Naquele momento o sufoco que senti durante todo o dia desapareceu e deu lugar a outra coisa. Clara. Simples. Inesperada. Um orgulho imenso!

Percebi que, no meio de tudo, eu estou a criar alguém que já sabe aquilo que eu ainda estou a aprender!

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