Quando a distância dói mais do que a ausência

Sobre separações, família e o luto silencioso dos pequenos momentos que se perdem

No sábado ela comemorou o seu quarto aniversário e eu não estava lá. O dia 27 de março de há quatro anos parece distante e, ainda assim, estranhamente próximo. Lembro-me exatamente de onde estava. Com fome. A pensar no almoço. Até o telemóvel vibrar. Duas. Talvez três fotografias. Uma vida nova. A nossa M. Tão pequenina que quase desaparecia na mão que a segurava. Barriguinha minúscula. Um babygrow laranja. Um gorro branco. A sua primeira roupinha…

Nasceu de cesariana, correu tudo bem. Mais pesada que o meu mais velho. Os pais estavam radiantes com o nascimento da terceira filha. Riam-se. Transbordavam felicidade! E eu? Coração pequeno, acelerado… e cheio! Mais uma sobrinha. Mais amor no mundo!

Acompanhei-a desde o início. Vi-a crescer. A ela e aos dois irmãos mais velhos, com quem tentei estar sempre presente. Criar memórias. Oferecer momentos que ficassem, nem que fosse só em forma de sensação. Há algo muito profundo em pertencer. Em fazer parte da vida de alguém. Mesmo sem partilharmos o mesmo sangue, eles eram meus também. De uma forma que não se explica.

Mas no sábado foi diferente…

Pela primeira vez, não pude entregar-lhe um presente em mãos. Não a vi soprar as velas. Não tirei a foto de família que guardaria no coração. Não vi os pais e os sorrisos orgulhosos, nem provei a fatia de bolo. E nem sequer tive a oportunidade de a ver brincar com o meu filho mais velho, um daqueles momentos simples que me enche sempre o coração e que, afinal, são tudo. E foi aí que senti. Não de uma vez só. Mas devagar.

Acordei triste, com um peso difícil de ignorar. Porque a separação também é isto. Não é só perder quem amávamos, ou reconstruir uma vida diferente, ou a dor imensa da distância dos nossos filhos. É isto também. As pessoas que faziam parte do nosso dia a dia… deixarem de o fazer. Aqueles momentos que achávamos serem garantidos, deixarem de ser nossos… e ninguém fala muito desta perda!

Eles vão continuar a ser família. De alguma forma, serão sempre. Mas não é igual. E essa diferença, essa distância silenciosa, também dói muito. De forma leve, profunda e impossível de ignorar.

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