Há separações que parecem mortes

Mas com uma diferença cruel: ninguém nos deixa parar para fazer o luto

A pessoa que esteve ao meu lado mais de metade da minha vida desapareceu da forma como existia para mim. E isso é difícil de explicar a quem olha de fora e vê apenas “um casal que se separou”. Não foi só um namorado. Não foi só o pai dos meus filhos. Foi o meu melhor amigo durante mais de 15 anos. A pessoa a quem ligava primeiro. Com quem partilhava tudo. Os silêncios. As rotinas. As piadas parvas. Os medos. Os planos. A vida inteira.

E de repente… deixou de existir daquela forma.

Às vezes sinto que alguém morreu. Mas pior: morreu e eu não tive direito a parar.

Porque há miúdos para vestir de manhã. Pequenos-almoços para fazer. Mochilas. Banhos. Histórias antes de dormir. Roupa para lavar. Jantares. Brincadeiras. Febres. Birras. Colo… Há sempre qualquer coisa urgente quando se tem filhos pequenos. E no meio disso tudo, espera-se que consigamos continuar a funcionar normalmente.

Mas como é que se faz luto enquanto se prepara sopa e se cantam músicas do Panda?

Como é que se chora uma vida inteira perdida quando um bebé está a puxar-nos a camisola porque quer mama e o outro quer ajuda para construir um dinossauro de legos?

Não há espaço para cair.

E talvez seja isso que mais me assusta nesta fase. É que nem tempo tive para perceber o que senti. Não houve silêncio. Não houve distância. Não houve aquele “desaparecer do mundo” que tantas vezes acompanha o fim de um grande amor. Porque aqui, enquanto o meu coração se partia, eu continuava a ter de ser mãe. E mãe não pode simplesmente desligar-se da vida durante uma semana para chorar no escuro.

Às vezes até me sinto culpada por estar triste. Porque há decisões urgentes para tomar. Decisões enormes. Daquelas que mexem com o futuro dos meus filhos. Onde vamos viver. Como vamos viver. Como vai ser a guarda deles. E eu olho para tudo isto e penso: como é que alguém toma as decisões mais importantes da vida exatamente na fase em que está mais perdido?

Pedem-me clareza quando eu ainda estou em choque. Pedem-me racionalidade quando há dias em que só me apetece encolher-me na cama e chorar pela pessoa que perdi. Pela família que perdi. Pela vida que achei que ia ter. Mas não posso. Porque às sete da manhã alguém acorda e chama: “Mamã?”. E eu levanto-me. Mesmo partida. Mesmo cansada. Mesmo sem saber como continuar.

Há dias em que sinto que estou a sobreviver a duas dores ao mesmo tempo: a perda do homem que amava… e o medo de perder metade da vida dos meus filhos também.

E talvez seja isso que quase ninguém entende numa separação com filhos pequenos: não há tempo para sofrer devagar. O coração parte-se… mas a rotina não espera.

Leave a Reply

Discover more from REWRITING FAMILY

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading