Sozinha no banco da frente

Uma viagem longa, dois filhos a chorar e tudo o que ficou pelo caminho

Estou há quatro horas a conduzir. A fazer uma viagem que normalmente duraria duas horas e meia, três no máximo. Ainda me falta metade. Atrás os meus filhos choram. Um porque não quer estar preso à cadeirinha, o outro porque só quer chegar.

Os gritos ecoam em mim, cada vez mais altos. Carrego no acelerador. Aumento o som da rádio. No banco ao lado não está ninguém. Só há um adulto no carro, e esse adulto sou eu. Já parei duas vezes. Agora conto os quilómetros até à próxima área de serviço. Ali podem correr, esticar as pernas, e distrair-se um pouco. Ali, pelo menos por breves momentos, o silêncio volta. Não os oiço chorar.

É que já tentei de tudo para os distrair. Cantei, inventei histórias, conduzi com uma mão enquanto esticava a outra para trás com o telemóvel a passar vídeos. Dei comida. Brinquedos. Conversa. Palmas no tejadilho. Resulta sempre… por instantes. Até se lembrarem da mãe. E voltarem os dois, em coro, a gritar: “mamã, mamã”.

A próxima área de serviço está ali à frente. Corto à direita. Estaciono o carro. Saio. Tiro um de cada vez e vou com os dois para dentro. Vamos os três à casa de banho. A dos deficientes. Tem mais espaço para nós. O mais velho faz xixi. O mais novo tenta chegar ao lavatório. Troco uma fralda. Seguro dois corpos pequenos que não param quietos. Depois, comida. Uma sandes para cada um. Um sumo de laranja natural para partilhar. Sentamo-nos os três.

Lá fora já está de noite. Conseguimos ver o nosso reflexo no vidro à nossa frente. Nele, três vultos. O meu e o dos meus filhos. Ao lado os de uma família de quatro que se sentou perto. Pai, mãe e dois filhos. Inteiros. Evito olhar durante muito tempo. Porque aquele vidro não reflete só o presente. Reflete tudo o que deixou de existir.

Éramos quatro. Agora somos três.

Brincamos mais um pouco. Eles ainda têm energia. Eu não. Sinto olhares. De estranhos. Aqueles olhares que misturam pena e admiração. E eu não quero nenhum dos dois. E por isso pego nos miúdos. Um em cada braço. Levo-os de volta ao carro. O mais pequeno chora. Esperneia. Pede maminha. Dou. Fico ali mais um bocadinho, no banco de trás, com ele ao colo e a segurar a mão do outro. Até acalmarem.

Voltamos à estrada. Minutos depois o choro começa. A cabeça pesa. O corpo dói.

Ligo ao meu pai. Basta ouvir a voz dele e o mais pequeno adormece de forma imediata. Como se estivesse tudo bem.

O meu pai fala também com o mais velho. Conta-lhe uma história inventada. Durante meia hora. E, pela primeira vez em horas, há silêncio vindo do banco de trás.

Consigo conduzir. Consigo respirar. Os meus filhos precisavam de mim. E houve momentos em que eu não consegui dar mais sem correr riscos. Alguém deu por mim. O meu pai. A minha âncora.

Sinto culpa. Mas também gratidão.

Chegamos a casa. Eles já dormem. E eu deito-me também. Ainda a aceitar e a aprender esta nova vida. Onde até o mais simples deixou de o ser. E onde, às vezes, o mais difícil é olhar para o que ainda existe sem me perder no que ficou para trás! Éramos quatro. Agora somos três. E há dias em que isso pesa mais do que qualquer viagem de quatro/ cinco horas. Mas seguimos. Mesmo quando dói. Mesmo quando cansa. Mesmo quando estamos a aprender a viver uma vida que não escolhemos, mas que, ainda assim, é nossa.

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