(Quis deitar tudo fora, mas esta história não é só minha)
Hoje os miúdos foram jantar a casa dele. Outra vez. E eu fiquei. Na nossa casa. Sozinha. Na companhia da televisão, que nem ouvi. Trabalhei, planeei, limpei, arrumei e organizei. Tentei ocupar o tempo. Mas, pelo meio, fui encontrando pedaços teus. Perfumes, óculos de sol, roupa, blocos de notas, sapatos, peças da máquina de barbear e fotografias. A dois, a três, a quatro e com outros.
É difícil estar aqui sozinha. Num espaço onde cada canto guarda uma memória. Um fragmento de nós quando ainda éramos inteiros. Pensei em mudar coisas. Alterar a casa. Adaptá-la a esta nova vida. Mas depois percebi: não adiantava. Escolhemos tudo juntos. A cozinha. A casa de banho. O chão. O sofá. Os candeeiros…
Mesmo que mudasse tudo… não deixaria de ser nosso. E, ao mesmo tempo, é o espaço seguro deles. Dos nossos filhos. E, aquilo que em mim provoca saudade, neles ainda é casa. Ainda é amor.
Hoje, enquanto arrumava a sala encontrei um tupperware. Lá dentro estavam fotografias-íman que antes viviam no frigorífico. Abri. E doeu. Olhar para aqueles sorrisos que agora são passado. Para aquela família que foi dois, depois três, depois quatro… e agora é três outra vez. Para gestos de carinho que hoje já não existem.
Durante um segundo quis deitar tudo fora. Apagar. Fechar. Mas parei. Porque esta história não é só minha. Não é só tua. Não é só nossa. É deles também. E eles merecem conhecê-la. Não pela forma como acabou. Mas pela forma como também foi feliz. E voltei a guardar as fotografias. No mesmo sítio. Como quem guarda uma versão antiga de nós. E fiquei ali. Com saudades. Não da pessoa que és hoje. Mas da pessoa que foste. Daquela com quem eu ainda teria ficado para sempre.

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