Voltei a ligar ao meu pai como quando era pequena

E percebi que há lugares que nunca deixamos de ter

Naquele dia estava nervosa. Ia contar ao meu pai da separação. Já tinham passado duas semanas dele fora de casa. Duas semanas a adiar. A esconder. A tentar ganhar tempo. Mas já não dava mais.

Estava cansada. Triste. Sem chão. A precisar de colo.

Saí de casa para ganhar coragem. Antes de carregar no número mais marcado do meu telemóvel, caminhei sem destino pelo bairro. Passos rápidos. Olhar perdido. À procura das palavras certas. Não havia.

Respirei fundo. E liguei.

Do outro lado ouvi a voz do meu pai. A mesma de sempre. Calma. Ternurenta. Segura. Ainda me contou coisas do dia dele, como se fosse uma chamada normal. Um dia normal. E eu deixei-o falar por uns segundos. como se isso pudesse adiar o momento. Mas não podia.

“Pai, estamos separados”

Silêncio.

“Ele já saiu de casa há duas semanas. Tenho estado sozinha com os miúdos. Estou sem chão. Preciso de ti. Preciso de colo”

E desatei a chorar. Sem filtro. Sem controlo. Sem saber o que dizer a seguir. Só chorar. Um choro descontrolado. Daqueles que não pedem licença. Que vêm de um sítio fundo, onde já não há palavras. Nem respostas. Nem direção.

Um grupo de rapazes que passava por mim reparou. Pararam. Perguntaram se eu estava bem. Se precisava de ajuda. Não estava. E não soube o que dizer. Apenas abanei a cabeça e continuei a andar. Um deles ainda me estendeu um chocolate. Aquele gesto pequeno, inesperado. Agradeci sem conseguir sorrir. E segui. A chorar.

Do outro lado a voz do meu pai já não era a mesma. Tinha mudado. Ficou mais baixa. Mais pesada. Como se estivesse a tentar segurar tudo ao mesmo tempo e a manter-se forte por nós os dois.

Se pudesse, tinha largado tudo naquele instante para me vir abraçar. Para me segurar. Eu sabia. E, mesmo assim, pedi-lhe que não o fizesse. Porque, naquele momento, havia mais pessoas a proteger. Mesmo que esse abraço fosse exatamente aquilo de que eu precisava.

Houve um momento em que deixei de o ouvir falar. Mas continuei a senti-lo. Na forma como respirava. Na forma como tentava manter a voz firme. Na forma como falhava. Senti o meu pai chorar comigo do outro lado da linha. Não vi as lágrimas. Mas ouvi-as. 

A chamada caiu. Tinha passado mais de uma hora. Ligou de volta. E ficou. Ficou até eu acalmar. Até conseguir respirar outra vez. Enquanto, do lado de lá, também ele lidava com a perda. Porque não era só eu. Ele também estava a perder.

Naquele dia perdeu alguém que já era um filho para ele. E, ao mesmo tempo, teve de segurar uma filha a desmoronar-se. À distância. Sem poder fazer o que mais queria. Chegar. E abraçar.

Desde esse dia, falamos todos os dias. Mais do que nunca. E percebi uma coisa que não estava à espera: o meu pai é ainda mais do que eu achava. Mais aberto. Mais presente. Mais inteiro. Menos rígido.

É ele que me puxa quando começo a afundar. Que atende sempre. Que nunca falha. Que me dá colo, mesmo à distância.

É abrigo. É o meu lugar seguro. É paz. É casa. Sempre foi. Mas agora… ainda mais.

A separação trouxe-me muita dor. Muitas perdas. Mas também me trouxe isto: o regresso do meu pai. E uma proximidade que sei que é para sempre.

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