Dizem que estou “demasiado ligada” aos meus filhos

(como se o amor tivesse um limite aceitável e um tempo certo para acabar)

Ultimamente dizem-me isto muitas vezes. Que estou demasiado ligada aos meus filhos. Que eles estão demasiado ligados a mim. Há quem diga com cuidado. Há quem diga com julgamento. E há quem diga sem pensar. Sem saber o que está a dizer.

“És obcecada pelos miúdos”

“Eles têm de se desapegar”

“Não podem ser tão agarrados à mãe”

Também já ouvi.

E eu fico a pensar… deviam estar agarrados a quem, então? Eles têm um ano. Têm quatro. São pequenos. Ainda estão a aprender o mundo. Ainda estão a aprender-se a eles próprios.

É a mim que procuram quando se magoam. É a mim que chamam quando acordam a meio da noite. É no meu colo que se acalmam quando estão doentes. É a minha mão que querem para adormecer…

Não é suposto?

Desde quando é que isto passou a ser um problema? Desde quando é que dar segurança virou excesso? Desde quando é que responder virou “estragar”?

Chamam-lhe apego a mais. Mas isto não é “demais”. Isto é presença. É vínculo. É cuidado. É amor. É o que constrói tudo o resto.

Porque um dia vão largar a minha mão. Um dia vão querer ir sozinhos. Um dia não vão precisar de mim para adormecer, nem para acalmar, nem para nada disto. Mas para isso acontecer… primeiro precisam de saber que eu estou aqui. Sempre.

E talvez seja isso que mais me custa nestas frases: é que vêm carregadas de uma pressa que não é deles. De uma ideia de independência que ignora o tempo certo das coisas.

Criamos filhos para serem independentes, sim. Mas a independência não nasce do vazio. Para mim, nasce de um colo seguro. De um vínculo forte. De saberem que podem ir… porque têm sempre para onde voltar.

E depois há esta outra parte, mais silenciosa. Mais difícil de explicar. A separação. Aceitar que não vou estar em metade dos dias deles. Metade das rotinas. Metade das histórias. Metade da vida.

Ninguém nos prepara para isto, sobretudo quando ainda são tão pequenos. Quando ainda cabem no nosso colo. Quando ainda nos procuram a meio da noite. Quando ainda somos o lugar seguro deles.

Ninguém nos ensina a confiar que vão estar bem… longe de nós. Nem a gerir o silêncio da casa quando eles não estão. Nem este vazio estranho que fica nos dias em que não somos “precisas”.

E, no meio disso, ainda ouvir que estou “demasiado ligada…”

Não. Estou exatamente onde devo estar!

Sou mãe. E se eles são “demasiado ligados a mim” é porque eu fui – e sou – o lugar onde aprenderam a sentir-se seguros. E isso não é um problema. É um privilégio. O problema talvez seja o desconforto de quem olha para esta ligação, e não o excesso dela. Porque amar assim, de forma inteira, disponível, e sem reservas, não devia ser visto como fraqueza. Devia ser o ponto de partida. E se isto é ser “demasiado ligada”, se isto é sentir demais, estar demais, amar demais… então sim. Sou.

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