Há lugares onde vamos celebrar o amor

Mesmo quando ainda estamos a aprender a sobreviver à perda dele

O fim de semana passado foi um dos mais emocionalmente intensos da minha vida. A prima dele casou. Tinha anunciado o casamento quando ainda estávamos juntos. Sempre gostei muito dela. Sempre nos demos bem. E quando nos separámos, ela soube. Ainda assim enviou-me o convite na mesma. Com uma mensagem bonita. Sentida. A dizer que gostava muito que eu estivesse presente.

A minha primeira reação foi imediata: “Não. Eu não consigo fazer isto.” Porque como é que alguém vai celebrar o amor enquanto está a fazer o luto do seu? Mas depois pensei melhor. A verdade é que eu não deixei de gostar dela. Nem ela de mim. E por isso fui.

Fui celebrar o amor enquanto tentava aceitar a perda do meu. E há uma ironia quase cruel no meio disto tudo: o casamento foi exatamente no sítio onde ele queria casar comigo. Comigo!

Lembro-me perfeitamente de quando falámos nisso pela primeira vez. E de eu lhe dizer logo que não fazia sentido. Que não fazia ideia de como enfiar ali cento e tal pessoas. Que era demasiado pequeno. Demasiado improvável. E no fim… couberam lá. Só não coubemos nós.

O casamento era perto da casa dos meus pais. Então acabámos por passar o fim de semana fora. E fomos juntos. No mesmo carro. Com os nossos filhos. Como tantas vezes no passado. E ao mesmo tempo como nunca antes. Foi estranho. Porque durante vários momentos parecia que ainda éramos uma família e que estava tudo bem.

Os miúdos iam felizes atrás. A cantar. A brincar. A rir. A falar sem parar. A última vez que fiz aquele percurso sozinha com os dois, choraram quase a viagem inteira. Desta vez não. Desta vez parecia que o carro tinha voltado a ser casa. E isso partiu-me e confortou-me ao mesmo tempo.

Ele foi falando comigo durante a viagem. Partilhando pequenas coisas que sentia. Comentários normais. Simples. Como se ainda existisse alguma versão antiga de nós ali sentada nos bancos da frente.

Mas quando chegámos… a realidade voltou. Eu fiquei em casa dos meus pais com os miúdos. E ele, pela primeira vez naquela terra, foi dormir a um hotel. Acho que foi aí que a ficha caiu verdadeiramente.

No dia do casamento deixei o meu filho mais novo com os meus pais por causa da varicela e fui apenas com o mais velho. Quando me viu pronta, vestida, olhou para mim e disse:

“Mãe, estás tão bonita.”

E eu quase chorei naquele instante. Porque há elogios que sabemos que vêm diretamente do coração.

Chegar ao casamento foi estranho. Chegar sem ele. Não saber se já tinha chegado. Se ainda vinha a caminho. Entrar apenas eu e o meu filho pela mão. Mas entrámos. Cumprimentei toda a gente. O meu filho precisou de tempo para se adaptar, por isso acabou por ser a minha companhia durante quase todo o início da festa. E talvez isso me tenha salvado um bocadinho também. Depois foi-se enturmando com os primos. Correndo. Rindo. Vivendo aquele dia sem o peso que eu levava dentro do peito. E quando deixou de precisar tanto de mim… eu fiquei sem saber muito bem onde colocar o corpo. Foi nessa altura que ele chegou. E durante uns segundos parecíamos dois estranhos no mesmo lugar.

Aquilo entristeceu-me mais do que estava à espera. Mas houve outra coisa que me apanhou completamente desprevenida: a vontade constante de o abraçar. Em pequenos momentos. Pequenos gestos. Quando nos cruzávamos. Quando o via sozinho. Quando alguma música tocava. Quando alguém fazia um brinde ao amor e eu me esquecia por segundos daquilo que somos agora. Tive vontade de o abraçar várias vezes durante aquele dia. Não o fiz. E isso custou como o caraças. Porque às vezes o corpo demora mais tempo do que a cabeça a perceber que já não pode procurar abrigo no mesmo sítio.

Mas ao mesmo tempo havia outra coisa dentro de mim: gratidão. Porque estar ali também me lembrou uma das perdas silenciosas da separação: a família do outro lado. As pessoas que durante anos também foram nossas. Os almoços. Os aniversários. Os casamentos. As rotinas. As memórias. Perdemos muito mais do que apenas a pessoa com quem estávamos. E talvez por isso me tenha emocionado tanto rever tanta gente de quem gosto genuinamente. Falei com todos. Só alguns tocaram no assunto da separação. E eu tentei fugir sempre dele.

Aquele dia não era sobre mim. Era sobre amor. E quando a prima dele entrou… meu Deus. Estava linda. Daquelas pessoas que entram num espaço e mudam a energia toda à volta. O noivo esperava-a com os olhos cheios de lágrimas e um sorriso impossível de esconder. E aquilo enterneceu-me profundamente. Depois vieram os votos. E quando olhei para a irmã dela ao meu lado, completamente emocionada, comecei a chorar também. E sabem uma coisa? Por momentos voltei a acreditar no amor. No amor romântico. Ele existe. Existe nos outros. E existiu em mim também. Mesmo que não tenha durado a vida inteira como eu imaginei. Mesmo que tenha acabado antes do que eu achava possível. Ele existiu. E acho que naquele instante percebi outra coisa importante: o facto de um amor acabar não significa que não tenha sido verdadeiro.

Almoçámos na mesma mesa. Eu e ele. Mas separados por tios, primos, cadeiras vazias e uma vida inteira que já não é a mesma. Foi estranho não me sentar ao lado dele. Ainda assim, não podia ter pedido melhor pessoa ao meu lado do que a tia dele. Uma mulher de quem sempre gostei profundamente. Acolheu-me sem hesitar. Protegeu-me em silêncio nas alturas em que percebeu que eu estava mais frágil. E houve muitos momentos assim ao longo do dia. O abraço apertado da noiva. As palavras bonitas que me disse por eu ter ido. Uma outra prima que me chamou discretamente para um canto onde ninguém nos via e me disse:

“Tu vais ser sempre família para mim.”

E depois pediu-me quase em tom de súplica que fosse como a mãe da noiva. Que, mesmo depois da separação, nunca saiu verdadeiramente da família. Várias pessoas me disseram isso ao longo do dia. Mas houve um momento específico que me desmontou completamente. A minha cunhada. Ou talvez ex-cunhada. Embora eu ache honestamente que ela nunca vai deixar de ser minha de alguma forma. Foi a única pessoa diante de quem não consegui segurar as lágrimas. Vi-a chorar também. E o meu sogro, ou ex-sogro, olhar para nós naquele exato momento, também ele com um ar triste, que não lhe conhecia. E naquele instante percebi uma coisa muito forte: é quando perdemos o chão que descobrimos quem realmente nos segura.

E não. Isto não significa que alguém tenha “escolhido o meu lado”. Porque não existem lados aqui. Existem duas pessoas profundamente magoadas. Duas pessoas a sofrer de maneiras diferentes. Mas também existe amor à volta disso tudo. E senti-o muito naquele dia. Mesmo no meio da dor. Mesmo no meio da saudade. Mesmo no meio daquilo tudo que nunca mais vai voltar a ser igual. Houve um pensamento que não me saiu da cabeça o dia inteiro: aquele era o casamento que ele imaginou para nós. E talvez, se tivéssemos falado mais sobre isso, eu tivesse acabado por aceitar.

Podia ter sido eu ali. Naquele vestido. Naquele lugar. Mas não fui. E nunca serei.

Depois do casamento voltámos a fazer a viagem juntos. Eu para a nossa casa. Ele para a casa da mãe. Os miúdos adormeceram rapidamente desta vez. E depois fui eu. Exausta. Emocionalmente esmagada por tudo o que tinha sentido. Quando acordei já perto de casa, mal falámos. Desta vez o silêncio ocupou o carro inteiro. Cheguei a casa. Voltei à nossa realidade. E desde então há uma frase que não me sai do peito: Tenho muitas saudades dele. Não da pessoa que ele é hoje. Mas da pessoa com quem eu me ia casar. E talvez seja isso que dói mais. Perceber que essa pessoa já não volta. Nunca mais.

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