Rimo-nos os dois. Ao mesmo tempo. Da mesma coisa

E, por um instante, isso deu-me esperança

Ontem foi quarta-feira. E ele veio cá jantar. Tem sido assim nas últimas semanas.

Vou buscar um dos miúdos. Ele o outro.  Chegamos a casa. Brincamos. Jantamos. Ele dá os banhos enquanto eu arrumo a cozinha. Brincamos outra vez. Eu adormeço-os. Ele despede-se. Às vezes arruma uma ou outra coisa. E vai embora enquanto eu fico no quarto com eles. Tem sido assim. Simples. Funcional. Quase automático.

Mas ontem houve espaço para algo diferente.

Estávamos os quatro na sala. Juntos, mas separados. Eu com o mais novo ao colo. Ele com o mais velho no sofá.

Ouvi algo lá fora. Fui à janela. Uma senhora, no logradouro, apanhava nêsperas. O mais pequeno, que se mete com toda a gente desde sempre, viu-a. Estendeu a mão pequenina e começou a dizer adeus. Ela não o viu. Então ele tentou outra vez.

“Olá”, disse. Uma das poucas palavras que já sabe. E desta vez ela olhou. Sorriu. E respondeu-lhe com o mesmo gesto.

Nesse instante, lembrei-me do mais velho, que momentos antes me tinha perguntado o que eram aquelas bolinhas amarelas nas árvores. “Nêsperas”, disse-lhe eu.

Chamei-o.

“Vem ver. Está ali alguém a apanhar nêsperas. temos de provar”. Ele veio. Subiu para a cadeira. Empoleirou-se na janela ao meu lado. E, sem pensar duas vezes, disse:

“Olá senhora”. Mais alto do que o habitual. Mais leve. Mais solto. Sem vergonha. Sem filtro.

Surpreendeu-nos aos dois que olhámos um para o outro e rimos. Ao mesmo tempo. Da mesma coisa. Um riso simples. Espontâneo. Daqueles que não se combinam. Acontecem. E, por um instante, foi como se nada tivesse mudado. Como se ainda estivéssemos na mesma página. Como se ainda fôssemos só uma família. Sem divisões. Sem horários. Sem ausências. Só nós.

Não durou muito. Mas foi o suficiente. Suficiente para me lembrar de uma coisa: a relação que tínhamos pode ter acabado, mas há outra a começar. Diferente. Imperfeita. Ainda em construção. Mas que às vezes ainda tem espaço para estes pequenos lugares de encontro. E talvez seja aí que mora a esperança. Não no que foi. Mas no que, mesmo depois de tudo, ainda consegue ser.

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