Mas isso não significa que não as estejam a sentir
Desde a separação comecei a olhar para os meus filhos de maneira diferente. Mais devagar. Mais atenta. Como quem tenta aprender uma língua nova sem dicionário. Porque percebi uma coisa importante: as crianças nem sempre conseguem explicar o que sentem… mas mostram-nos na mesma. Só que de outras formas. E às vezes os sinais são tão subtis que podiam passar despercebidos a qualquer pessoa que não estivesse mesmo a olhar.
O meu filho mais velho, por exemplo, antes desenhava-nos quase sempre aos quatro. A mãe. O pai. O mano. Ele. A família inteira. Agora muitas vezes desenha-me só a mim e a ele. Ou só a mim. Há sempre flores. Um sol. Às vezes um arco-íris. Como se tentasse construir, no papel, um lugar seguro onde ainda consegue respirar melhor.
Outras vezes os sinais aparecem de noite.
Começou ocasionalmente a fazer xixi na cama. Coisa rara antes. E algumas dessas noites coincidiram precisamente com os dias em que regressava da casa do pai. Não sei se está diretamente ligado. Talvez esteja. Talvez não. Mas aprendi que, com crianças, nem tudo aparece em palavras. Às vezes o corpo fala primeiro.
Também acorda algumas noites a falar agitado. Meio perdido entre o sono e qualquer coisa que parece maior do que ele. Às vezes chama por mim. Outras pelo pai. Outras não entendo o que diz.
E depois há os momentos que me partem em silêncio. Dias em que, antes de adormecer, me diz baixinho:
– “Estou triste porque queria que o pai voltasse para casa.”
Ou quando me diz que tem saudades do pai… mas não quer ir para casa dele porque depois sente mais saudades minhas.
E esta frase fica a ecoar dentro de mim durante dias. Porque percebi que talvez o meu filho esteja a sentir uma coisa muito difícil para uma criança tão pequena: como se para estar ligado a um de nós tivesse de se afastar um bocadinho do outro. E nenhuma criança devia sentir que amar um dos pais significa perder espaço para amar o outro.
Às vezes partilho estas coisas com o pai deles. Ou partilhava. Mas normalmente desvaloriza. Diz que é normal. Que eles estão bem. Que os miúdos adaptam-se. E talvez parte disso seja verdade. As crianças têm uma capacidade enorme de adaptação. Muitas vezes até maior do que os adultos. Mas adaptação não significa ausência de dor.
E acho que uma das coisas mais perigosas nestes processos é convencermo-nos de que, porque os filhos continuam a brincar e a rir, então está tudo resolvido dentro deles.
Por isso deixei de insistir muito nestas conversas. Ainda assim continuo a acreditar que vale a pena olhar para estes sinais com atenção. Não para dramatizar. Não para viver em alerta. Mas porque os nossos filhos merecem ser vistos também naquilo que ainda não conseguem explicar.
Talvez por isso, o mais velho procure tanto aqueles momentos em que estamos todos juntos. Pequenas oportunidades de voltar a juntar o mundo dele.
No início da separação fazia isso de uma forma que tinha tanto de inocência como de desespero. Uma vez fechou-se no quarto para nos “preparar uma surpresa”. Quando nos deixou entrar, tinha quatro almofadas alinhadas no chão. Explicou-nos onde cada um se devia deitar. Ele. O irmão. O pai. A mãe. Todos deviam deitar-se lado a lado dentro de uma “nave espacial”.
Na altura sorri. Hoje percebo que talvez aquilo não fosse só uma brincadeira. Era uma tentativa de manter a família inteira dentro do mesmo espaço.
E depois há as perguntas aparentemente pequenas.
– “Mãe, este carro é nosso, não é?”
Mesmo quando ele já sabe a resposta.
Mas aquilo nunca é sobre o carro. Nem sobre os objetos. É sobre perceber se ainda existem coisas que continuam a pertencer aos quatro. Coisas que sobreviveram à mudança.
E o mais impressionante é perceber que até o meu filho mais novo, com apenas um ano, parece sentir coisas que ainda não sabe explicar.
Desde que o pai saiu de casa começou a procurar muito mais a mama. Sobretudo quando volta da casa dele. Fica mais tempo agarrado a mim. Pede mais colo. Mais contacto. Mais presença. Pode ser coincidência. Pode também ter relação com as doenças constantes destes meses. Mas talvez não seja só isso. Na escola dizem que anda mais agitado também.
E às vezes penso como é estranho o facto de os bebés nem sequer compreenderem o conceito de separação… mas talvez compreendam perfeitamente a ausência. A mudança. O silêncio. A quebra de rotina. O vazio emocional nos adultos à volta deles.
Os filhos sentem muito mais do que nós imaginamos. Mesmo quando continuam a brincar. Mesmo quando se riem. Mesmo quando aparentemente “estão bem”. E talvez uma das partes mais difíceis da parentalidade seja esta: perceber que não conseguimos proteger completamente os nossos filhos da dor. Nem mesmo quando fazemos tudo com amor.
Mas também acredito noutra coisa.
Os sinais não existem só para nos assustar. Existem para nos aproximar. Para nos lembrar de olhar com mais atenção. De dar mais colo. Mais tempo. Mais escuta. Mais paciência. Porque às vezes uma criança não diz “estou triste”.
Mas desenha uma casa diferente. Pede mais abraços. Colo. Faz perguntas às quais já sabe a resposta. Ou cria uma nave espacial de almofadas onde ainda cabe a família inteira.

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