E nos últimos tempos tenho ouvido muitas delas
Tenho falado com alguns filhos de pais separados. Alguns amigos. Outros completos desconhecidos que chegaram até mim através desta página. Pessoas que decidiram partilhar comigo pedaços da sua infância. Memórias. Dores. Coisas que ainda hoje carregam. E, no meio de histórias diferentes, idades diferentes e famílias completamente diferentes… há uma ideia que se repete muitas vezes.
Quase todos se lembram da sensação de terem de sair de uma casa quando não queriam. É o que mais repetem.
Mesmo quando gostavam muito dos dois pais. Mesmo quando eram amados. Mesmo quando tudo “funcionava bem” aos olhos dos adultos.
Lembram-se dos horários rígidos. Dos dias estipulados. Das mudanças obrigatórias. Das malas feitas. Das decisões tomadas por outros sobre onde tinham de estar… mesmo nos dias em que o coração deles queria outra coisa.
E isto fez-me pensar muito.
Porque nós, adultos, temos uma necessidade enorme de organizar a dor. De criar regras. Rotinas. Calendários. Tentamos fazer tudo “certo”. E eu percebo isso. Também percebo que estabilidade é importante. Que os filhos precisam de segurança, previsibilidade e estrutura. Claro que sim.
Mas talvez haja uma diferença entre dar estabilidade… e retirar espaço emocional.
Uma das mensagens que mais me tocou foi a de uma rapariga que me contou que os pais sempre foram muito flexíveis depois da separação. Havia anos em que era suposto passar o Natal com um deles, mas ela e o irmão queriam estar com o outro. E os pais permitiam isso. Sem culpas. Sem guerras. Sem fazer os filhos sentirem que estavam a escolher entre pai e mãe.
Contou-me que houve fases em que precisou mais da mãe. Outras em que se aproximou mais do pai. E que aquilo de que guarda mais carinho não é o acordo que os pais tinham em tribunal. É o facto de se ter sentido ouvida.
E recebi tantas mensagens parecidas com esta.
Filhos que hoje são adultos e que ainda se lembram da tristeza de terem de sair de casa “porque era dia”. Mesmo quando queriam ficar mais um bocadinho. Mesmo quando estavam cansados. Tristes. Ou simplesmente precisavam mais daquele colo naquele momento.
E acho que isto diz muito.
Porque adaptar-se a uma separação já é um processo enorme para uma criança. O mundo deles muda completamente. A casa muda. As rotinas mudam. Às vezes até a forma como olham para o amor muda. E talvez, no meio de tanta mudança imposta pela vida, haja pequenas coisas onde possamos dar-lhes algum espaço para sentirem também quem são e o que precisam.
Isto não significa deixar uma criança mandar na vida dos adultos. Nem colocar sobre ela decisões que não lhe pertencem. Não significa falta de limites. Nem ausência de estrutura.
Significa apenas que os estamos a ouvir.
A respeitar o ritmo deles. A personalidade deles. O facto de haver dias em que precisam mais da mãe. Outros do pai. Dias em que talvez precisem só de sentir que a opinião deles também importa no meio de uma mudança que nunca escolheram.
Porque às vezes nós, pais, falamos muito sobre a capacidade que os filhos têm de se adaptar. E é verdade. Eles adaptam-se. Adaptam-se quase sempre.
Mas talvez nós também tenhamos que nos adaptar a eles durante este processo. E talvez parentalidade depois da separação seja exatamente isso: perceber que nem tudo o que é equilibrado no papel é necessariamente equilibrado no coração de uma criança.
E talvez um filho que se sente ouvido cresça muito mais seguro do que um filho que apenas aprendeu a cumprir horários.

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