(Há cansaços que não se resolvem com descanso)
“Pareces cansada”. É uma frase que tenho ouvido algumas vezes. E é verdade. Às vezes estou. Depois vem a segunda parte: “Podias ir passar uns dias fora. Sem os miúdos. O pai fica com eles”.
O pai dos meus filhos diz-me isto com frequência. Também já o ouvi de outras pessoas. E eu sei que o dizem com boa intenção. Sei mesmo. Porque me veem cansada. Triste às vezes. Sobrecarregada outras. E querem ajudar. Mas há qualquer coisa nesta ideia que nunca me fez sentido.
Neste momento os meus filhos veem o pai quase todos os dias. O mais velho dorme com ele à segunda-feira. À terça jantam os dois em casa dele. À quarta jantamos todos juntos cá em casa. Ao fim de semana dividimos normalmente os dias. E durante a semana continuamos a encontrar-nos quase diariamente por causa da logística das escolas.
Mas a verdade é que os miúdos ainda passam a maior parte do tempo comigo. São muito pequenos. E este ritmo tem funcionado bem para eles. Pelo menos por enquanto.
Ainda assim, sempre que me veem mais cansada, oiço:
– “Vai uns dias para fora. Eu fico com eles”
– “Deixa-os com o pai e vai passear”
E eu percebo a lógica. Porque para outras pessoas e para o pai, por exemplo, isto talvez tenha funcionado. Depois da separação já fez viagens. Algumas em trabalho. Outras de férias. Com amigos. Com família. E acredito que lhe tenha sabido bem. Que tenha descansado. Que tenha respirado.
Mas eu não sinto o mesmo. E às vezes acho que isto é uma das coisas mais difíceis de explicar. Porque sim. Estou cansada. Mas não estou cansada dos meus filhos. Nunca foram eles o problema. O meu cansaço não vem dos abraços. Nem dos beijinhos. Nem das brincadeiras. Nem das histórias antes de dormir. Nem das conversas intermináveis sobre o antigo Egipto. Nem dos pedidos de colo. Nem das mãozinhas que me procuram durante a noite.
O meu cansaço vem do resto. Vem de tratar de mil e uma coisas que antes eram divididas por dois. Vem das decisões. Das contas. Das compras. Da roupa. Das refeições. Das burocracias. Dos pedidos das escolas. Das preocupações. Da logística. Do trabalho. Da casa. Dos medos. Da incerteza. Do luto.
Porque há dias em que não estou apenas a tratar da vida normal. Estou também a tentar sobreviver ao fim da vida que tinha imaginado. E isso cansa. Muito. Há vários processos de luto a acontecer ao mesmo tempo. O luto da relação. O luto da família que sonhei. O luto dos planos que tinha. O luto do futuro que imaginava.
E tudo isto acontece enquanto continuo a fazer almoços, a responder a emails, a marcar consultas, a lavar roupa e a aparecer para os meus filhos todos os dias.
Por isso não. Neste momento não sonho com uma semana sem eles. Na verdade, acho que me sentiria pior. Talvez descansasse fisicamente. Mas emocionalmente tenho quase a certeza de que voltaria mais cansada. Porque é precisamente com eles que encontro a maior parte da paz que ainda tenho. É neles que encontro sentido nos dias mais difíceis. São eles que me fazem levantar quando não me apetece. Continuar quando já não sei bem como. Sorrir quando me apetece chorar.
E por isso há uma coisa que às vezes me apetece responder quando me dizem para ir passear uma semana. Não preciso que me levem os filhos. Preciso que me ajudem a carregar o resto. A roupa. As refeições. As compras. A logística. As burocracias. As coisas invisíveis que ninguém vê. Porque talvez o problema nunca tenha sido passar demasiado tempo com os meus filhos. Talvez o problema seja estar a carregar demasiado peso sozinha. E isso são coisas muito diferentes.
Há cansaços que não se resolvem com férias. Resolvem-se com apoio. Com presença. Com ajuda verdadeira. Com alguém que, em vez de dizer “vai descansar”, aparece para segurar um bocadinho daquilo que estamos a carregar. E talvez seja isso que tantas mães e pais que estão separados tentam explicar.
Não precisamos de férias dos nossos filhos. Precisamos de não carregar o mundo inteiro às costas.

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