(e nos fazem perceber que talvez esteja tudo certo afinal)
No outro dia saí de casa durante um bocadinho. Fui comprar algumas coisas de que os miúdos precisavam. Coisas simples. Meias. Calções. T-shirts. Cuecas para o mais velho. Pomada para o mais novo. Pequenas compras de mãe que ninguém vê, mas que ocupam metade da nossa cabeça todos os dias.
Eles ficaram em casa com o pai. A brincar.
Vivemos num rés-do-chão e, quando voltei, toquei à campainha do prédio. O pai abriu-me a porta cá de baixo e, mal entrei, ouvi um barulho vindo de dentro de casa. Passos pequenos. Rápidos. Gargalhadas. Excitação.
E no segundo seguinte os dois apareceram à porta. A correr para mim.
– “Mamã! Mamã!”
O mais novo vinha aos tropeções. Desengonçado. Desorientado na pressa de chegar primeiro. O mais velho vinha aos saltos. A dançar, aos gritos, como se eu tivesse estado fora durante dias em vez de apenas umas horas.
Entraram os dois em mim ao mesmo tempo. Atiraram-me ao chão no meio do corredor enquanto tentavam, cada um à sua maneira, chegar primeiro ao meu colo. Abraçavam-me. Empurravam-se um ao outro. Riam. Falavam ao mesmo tempo. Queriam mostrar-me brinquedos, contar-me coisas, ter-me só deles durante uns segundos. E eu sentei-me no chão. Com um em cada perna. Abracei-os aos dois ao mesmo tempo e enchi-os de beijinhos até se rirem ainda mais. E naquele instante também eu sorri com verdade.
Daquelas vezes em que o sorriso não é forçado. Nem sobrevivência. Nem tentativa de parecer bem. E é só felicidade pura a entrar-nos no peito sem pedir licença. Porque no meio desta fase tão difícil, às vezes pergunto-me constantemente se estou a falhar. Se estou a conseguir protegê-los disto tudo. Se estou a fazer o suficiente. Se eles vão ficar bem. Se esta nova versão da nossa família lhes vai deixar feridas ou memórias felizes.
Mas depois existem momentos assim. Momentos pequenos. Quase invisíveis para o resto do mundo. E nesses momentos percebo que o mais importante continua intacto. O amor. A segurança. A sensação de casa. Porque os meus filhos continuam a correr para mim como se eu fosse o melhor lugar do mundo. E talvez isso queira dizer que, apesar de tudo, alguma coisa estamos a fazer bem.
Talvez queira dizer que eles continuam felizes. Que continuam inteiros. Que continuam a sentir-se amados. E talvez também seja isto que ninguém nos diz: às vezes não são as grandes decisões que nos mostram que estamos no caminho certo. São estes segundos pequeninos. Um abraço no corredor. Dois filhos aos gritos a correr para a mãe. Um colo dividido entre os dois. E um coração que, por instantes, deixa finalmente de ter medo.

Deixe um comentário