(demorei muitos meses a perceber qual era a verdadeira diferença entre nós)
Esta semana foi a festa de final de ano da escola do nosso filho mais velho. Cheguei sozinha. E foi estranho. Desde que nasceu que entrava nestes sítios sempre acompanhada. Desta vez entrei sem saber sequer onde me sentar. Não sabia se ele já tinha chegado. Nem se vinha. E dei por mim a olhar à volta sem saber muito bem o que fazer com o meu corpo, que naquele momento era só isso. Um corpo. Vazio. À espera. À procura de um lugar onde não me sentisse tão sozinha. Os miúdos ainda não tinham chegado. As cadeiras iam enchendo devagar. Pais. Mães. Avós. Irmãos. Conversas cruzadas. Risos. E eu ali. No meio. Perdida.
Passado um bocadinho ouvi alguém chamar por mim. Era a mãe do melhor amigo do meu filho. Sorri. Sentei-me ao lado dela. E agradeci, em silêncio, por naquele momento não ter ficado só. Entretanto ele chegou. Viu-me. Veio perguntar se eu tinha conseguido entregar uma peça de roupa que o nosso filho precisava para a atuação. Disse-lhe que sim. Sorriu. E foi sentar-se noutro lado. A poucos metros de mim. Foi um gesto tão simples. Tão normal. Tão esperado. E, mesmo assim, doeu. Porque ainda há poucos meses nos sentávamos lado a lado. Comentávamos as atuações em surdina. Fazíamos piadas um com o outro. Ríamos dos nervos dos miúdos. Tirávamos fotografias juntos. Desta vez não. Desta vez havia dois lugares. O dele. E o meu.
As atuações começaram. Primeiro as das outras salas. Depois a do nosso filho. E eu chorei. Mas eu choro por tudo. Choro quando vejo crianças felizes. Choro quando vejo orgulho. Choro quando vejo amor. E naquele pátio havia tanto de tudo isso. Os miúdos dançavam como se estivessem no maior palco do mundo. Procuravam os pais com os olhos. Sorriam quando os encontravam. Acenavam. Esqueciam metade das músicas e das coreografias porque estavam demasiado ocupados a confirmar que as pessoas mais importantes da vida deles estavam ali.
Até que o nosso filho nos viu. Saltou. Sorriu. Chamou um amigo. E apontou na nossa direção. “Olha… a minha mãe. E o meu pai.” Não disse “o meu pai ali” e “a minha mãe aqui”. Disse aquilo como se ainda fôssemos uma só coisa. Como se ainda pertencêssemos à mesma frase. E durante aqueles segundos… aconteceu isso. Durante aqueles segundos não éramos um casal. Mas continuávamos a ser a casa dele.
Quando a atuação terminou pediram aos pais que fossem ter com os filhos. Assim que nos viu, o nosso começou a correr. Correu para os dois. Nem para mim. Nem para o pai. Para nós. Abriu os braços e abraçou-nos ao mesmo tempo. E naquele abraço percebi uma coisa muito simples. Há dias em que os filhos não precisam que os pais se amem. Precisam apenas de sentir que continuam a poder amar os dois ao mesmo tempo.
Depois brincámos um bocadinho. Corremos. Rimos. E decidimos ir buscar o irmão mais novo para irmos jantar fora. Os quatro. Foi a primeira vez desde a separação. Estranho. Bonito. Doloroso. Tudo ao mesmo tempo. Houve momentos em que parecia que o tempo tinha voltado para trás. Outros em que bastava olhar para a mesa para perceber que já nada era igual. Mas os miúdos estavam felizes. E, naquele momento, isso bastava. Quando chegámos a casa, ele ficou para lhes dar banho. Amanhã vai viajar em trabalho durante alguns dias e queria aproveitar todos os minutos possíveis com eles. Ficou até adormecerem. E eu gostei que tivesse ficado.
Continuo a gostar de o ver ser pai. Talvez porque nunca tenha deixado de achar que é um pai extraordinário. Quando chegou a hora de ir embora aconteceu uma coisa estranha. O corpo às vezes parece que sabe antes da cabeça. E algo em mim puxou por ele. Nem pensei. E dei-lhe a mão. Depois abracei-o. Não com um abraço de quem quer voltar. E nem com um abraço de quem já esqueceu. Não. Foi um abraço de quem partilhou quinze anos da vida com aquela pessoa. De quem continua a reconhecer naquele corpo uma parte enorme da sua história. E acho que ele percebeu isso. Porque me abraçou da mesma maneira. E quando se afastou… eu já estava a chorar. Antes disso ele sorriu. Saiu. Fechou a porta. E eu fiquei ali. Parada. Com um misto de emoções impossível de explicar. Há dias em que sinto saudades. Outros em que sinto raiva. Há dias em que olho para ele e vejo o homem com quem me imaginei envelhecer. Outros em que vejo apenas a pessoa que escolheu partir. Há dias em que o admiro. Outros em que me zango com ele. E acho que esta é uma das partes mais difíceis da separação. Perceber que o amor nem sempre desaparece quando a relação acaba. Às vezes transforma-se numa mistura estranha de gratidão, tristeza, revolta, carinho e saudade. Tudo ao mesmo tempo.
Durante muitos meses carreguei uma culpa enorme. Pelas discussões. Pelo cansaço. Pela maternidade. Pelo tempo. Pela distância. Passei noites inteiras a fazer contas. “E se eu tivesse…”; “E se eu não tivesse…”; “E se naquele dia…”. Até perceber que isso já não importava. Que essa culpa já não a tinha de carregar. E achei que finalmente estava em paz. Até perceber que ainda há uma outra que eu carrego. A única que ainda vive comigo.
Lembrei-me do meu avô. Há muitos anos a minha avó esteve muito doente. Primeiro vários AVCs. Depois um cancro agressivo. Houve dias em que entrou em coma. Dias em que já não nos reconhecia. Dias em que parecia que já nem se reconhecia a ela própria. O meu avô esteve lá sempre. Houve uma altura em que deixou de conseguir entrar no quarto porque lhe doía demasiado vê-la assim. Mas nunca saiu do hospital.
Lembro-me de um dia chegar para a visitar e encontrar o meu avô encostado à parede do corredor. Nunca me vou esquecer daquela imagem. As mãos atrás das costas. A cabeça baixa. Os olhos presos no chão. Sem fazer nada. Apenas à espera. À espera que alguém abrisse aquela porta e lhe dissesse que ela ia ficar bem. Essa imagem nunca mais saiu de mim. E hoje, sem perceber muito bem porquê, voltou. Porque acho que finalmente compreendi o que ela sempre me quis ensinar.
Durante todos estes anos houve uma parte de mim que sempre soube qual de nós seria aquela pessoa encostada à parede. Sempre soube que, se um dia a vida nos colocasse perante uma escolha entre ficar ou partir… Eu ficava. Ficava para mais uma conversa. Ficava para mais uma tentativa. Ficava para mais um abraço. Ficava para mais uma terapia. Ficava para mais um ano difícil. Ficava cansada. Ficava zangada. Ficava desiludida. Mas ficava.
Passei muito tempo à procura da culpa. E primeiro achei que estava nas discussões. Depois no cansaço. Depois na maternidade. Depois em mim. Mas hoje acho que finalmente a encontrei. Perguntei-me muitas vezes “e se eu tivesse amado mais… teria chegado?”. A verdade é que não. Porque o problema nunca foi amar pouco. Ou demasiado. E eu nunca pedirei desculpa por isso. O meu problema foi acreditar que amar pelos dois podia chegar para os dois. Que o amor de uma pessoa podia substituir o de duas. E talvez essa seja uma das maiores ilusões do amor. Pensar que conseguimos amar alguém até ao ponto de o convencer a ficar. Não conseguimos. O amor nunca obriga ninguém a ficar. Apenas nos mostra… quem fica!
Passei anos a acreditar que, se eu amasse pelos dois, chegava. Que o amor resolvia tudo. Que o tempo resolvia o resto. Hoje sei que não. O amor não consegue fazer duas pessoas amar da mesma maneira. Nem com a mesma intensidade. Nem com a mesma capacidade de ficar. E talvez seja essa a única culpa que ainda carrego. Não a culpa de a relação ter acabado. Nem a culpa de não ter sido suficiente. Mas a culpa de ter confundido esperança com realidade. De ter visto os sinais. E, ainda assim, ter escolhido acreditar que um dia seriam diferentes.
Apesar de tudo isto… Se me perguntassem hoje se apagava os últimos quinze anos da minha vida… A resposta continuaria a ser não. Voltava a escolhê-lo. Voltava a escolher os nossos filhos. Voltava a escolher todas as viagens. As gargalhadas. As discussões. As noites. As manhãs. Voltava a escolher quase tudo. Porque amar nunca é um erro. Mesmo quando não dura para sempre. Só há uma coisa que faria diferente. E da próxima vez que amar alguém… espero escolher alguém que, quando a vida ficar difícil, fique ao meu lado encostado à mesma parede. À espera do mesmo milagre.

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