(assumindo que somos todos bons pais e queremos todos o melhor para os nossos filhos)
Para os dias em que acordas e ainda pensas que isto não pode estar a acontecer. Para os dias em que olhas para a tua vida e sentes que alguém carregou no botão de destruir. Para os dias em que ainda procuras uma explicação que faça sentido. Há uma pergunta que provavelmente te persegue. “Onde foi que eu falhei?”. Talvez a faças todos os dias. Talvez a faças enquanto conduzes. Enquanto tomas banho. Enquanto tentas adormecer. Enquanto olhas para os teus filhos. “O que podia ter feito diferente?”
Mas deixa-me dizer-te uma coisa que talvez ainda não consigas ouvir. Nem todas as separações acontecem porque alguém falhou. Às vezes acontecem porque duas pessoas deixaram de conseguir caminhar juntas. E por mais que procures, talvez nunca encontres uma resposta que alivie verdadeiramente a dor. Porque há perdas que não se resolvem. Apenas se aprendem a carregar.
Também vais sentir culpa. Muita. Culpa pelos teus filhos. Pelas duas casas. Pelas despedidas. Pelas mochilas. Pelos dias em que não vais estar. Pelos momentos que vais perder. Mas há uma culpa que tens de largar. A culpa de não teres conseguido salvar sozinho uma relação que precisava de duas pessoas para continuar. Porque amor não se faz sozinho. Casamento não se faz sozinho. Família não se faz sozinha. E separação também não.
Outra coisa. Não transformes a tua dor numa guerra. Eu sei que às vezes apetece. Eu sei que às vezes parece injusto. Eu sei que há dias em que sentes raiva. Mas os teus filhos não precisam que lhes mostres quem teve razão. Precisam que lhes mostres que continuam seguros. E isso exige uma coragem muito maior.
Talvez também te custe ver a outra pessoa seguir em frente. Sorrir. Viajar. Respirar. Como se estivesse melhor do que tu. Mas lembra-te disto: o facto de ter sido ela a tomar a decisão não significa que não esteja a sofrer. Não significa que não tenha medo. Não significa que não chore quando ninguém vê. Não significa que não tenha perdido coisas importantes também. Tentar compreender isso não diminui a tua dor. Mas pode impedir que ela te destrua.
Se és mãe de um bebé e sentes que ninguém percebe o que estás a viver, também quero que saibas uma coisa. É normal não estares preparada. Porque não passaste apenas por uma separação. Passaste por uma gravidez. Por um parto. Por noites sem dormir. Por uma transformação completa da tua identidade. E agora pedem-te que aceites uma nova vida quando ainda estavas a aprender a viver a anterior. É normal que o teu corpo e o teu coração precisem de mais tempo. Dá-lhes esse tempo. Mas não fiques presa lá para sempre. Porque os teus filhos não precisam que permaneças eternamente partida para provar quanto os amas. Precisam que te reconstruas. Precisam de te voltar a ver sorrir. Precisam de perceber que a vida continua. Mesmo quando o sonho acaba.
E talvez seja essa a parte mais difícil. Aceitar que a história não foi aquela que imaginaste. Que o futuro que tinhas desenhado deixou de existir. Mas isso não significa que a tua história tenha acabado. Significa apenas que ainda não conheces o resto. E há capítulos que, quando os estamos a viver, parecem um fim… quando afinal são apenas uma mudança de caminho. Os teus filhos não precisam que ganhes esta guerra. Precisam apenas que consigas atravessá-la. Que sobrevivas a ela. E isso já é um dos maiores atos de amor que lhes podes dar.

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