(e eu ali no meio, a assistir ao luto dos meus filhos e a tentar não me partir)
Há dias que ficam connosco muito depois de acabarem. Ontem foi um deles. O meu filho mais velho tem dormido uma vez por semana em casa do pai. Às vezes mais. Esta semana foi diferente. Como a escola está na semana da praia e a casa do pai fica um pouco mais perto, acabou por passar lá mais noites do que estava previsto.
Ontem, por acaso, tive a sorte de o ver quando nem contava. O pai precisava de ir cortar o cabelo e perguntou-me se podia ficar com ele durante esse bocadinho. Claro que podia. Com os meus filhos nunca há favores. Há disponibilidade.
Quando chegaram, passámos o tempo a fazer aquilo que fazemos quase sempre quando estamos juntos. Jogámos futebol na sala. Rimos. Jantámos. Dei banho aos dois. Durante umas horas pareceu que a vida se tinha esquecido de que agora existem duas casas. E talvez tenha sido precisamente por isso que doeu tanto quando chegou a hora de voltar.
O pai pegou nas coisas. Chamou-o. E foi então que o meu filho correu para mim. Abraçou-se às minhas pernas e começou a chorar. Mas não era um choro de birra. Nem um choro de quem queria ficar acordado mais um bocadinho. Era um choro diferente. Daqueles que vêm de um sítio onde as palavras ainda chegam antes de nós. Olhou para mim e disse:
– “Mãe… tenho muitas saudades tuas”
Abracei-o. E a seguir sorri. Porque às vezes sorrimos para tentar impedir que as lágrimas apareçam primeiro. Depois respondi-lhe aquilo que achei que uma mãe devia responder. Disse-lhe que as saudades eram uma coisa bonita. Que significavam amor. Que só temos saudades de quem é importante. Ele abanou a cabeça. Continuou a chorar. E respondeu baixinho:
– “Não, mãe… não é nada bom”
E eu percebi. Percebi que há coisas que fazem sentido na cabeça dos adultos… mas continuam a doer exatamente da mesma maneira no coração das crianças. As saudades podem ser uma prova de amor. Mas continuam a ser saudades. E as saudades pesam. Sobretudo quando ainda se é tão pequeno.
Enquanto tentava acalmá-lo, o pai aproximava-se da porta. E foi então que aconteceu outra coisa ao mesmo tempo. O irmão mais novo começou também a chorar. Ainda fala pouco. Mas não precisou de dizer quase nada. Agarrou na mão do pai. Puxou-o na direção do quarto. E enquanto o puxava apenas repetia:
– “Papá… papá…”
Como se estivesse a dizer: “Aqui”; “anda cá”; “Fica”.
Naquele instante tive dois filhos a chorar por pessoas diferentes. Um porque não queria deixar a mãe. Outro porque não queria deixar o pai. E acho que nunca me senti tão pequena. Há dias em que me perguntam qual é a parte mais difícil da separação. Muita gente imagina que é a solidão. Ou a logística. Ou o silêncio da casa. Mas não. A parte mais difícil é esta. É assistir ao luto dos nossos filhos… sem conseguir fazer desaparecer a razão pela qual eles choram. É perceber que os dois têm razão. Que os dois só querem aquilo que qualquer criança devia poder ter. Os pais. Ao mesmo tempo. No mesmo lugar.
Há quem diga que as crianças se habituam. E talvez seja verdade. As crianças habituam-se a quase tudo. Estou farta de o dizer. Mas ontem lembrei-me de outra coisa. Habituarmo-nos… nunca foi o mesmo que deixarmos de sentir falta. E talvez seja precisamente isso que tantas vezes esquecemos. Os nossos filhos aprendem a viver entre duas casas. Aprendem horários. Rotinas. Mochilas. Dias. Mas isso não significa que deixem de desejar, de vez em quando, uma casa onde ninguém precise de ir embora. Ontem, quando fechei a porta, chorei. Não porque ache que estamos a fazer tudo errado. Nem porque ache que exista uma solução perfeita. Chorei porque percebi que há dores que nenhuma decisão consegue evitar. E talvez crescer depois da separação seja exatamente isto. Continuarmos a fazer o melhor que conseguimos… mesmo quando o melhor continua a partir-nos o coração.

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