(e obrigada por nunca me deixares carregar este peso sozinha)
Há dias em que olho para o meu pai… e sinto culpa. Não porque ele me faça sentir isso. Pelo contrário. Porque nunca me deixou sentir que era um peso.
Quando me separei, havia uma conversa que fui adiando durante dias. Aliás, semanas. Não porque tivesse medo da reação dele. Mas porque sabia aquilo que aquela conversa lhe ia causar. E lhe ia roubar.
Nunca me vou esquecer desse dia. Chorei. Ele chorou comigo. Foi a primeira vez que ouvi o meu pai chorar. E há coisas que nos partem de maneiras diferentes quando somos nós a provocá-las.
O meu pai trabalha desde os catorze anos. Quase todos os dias. Incluindo aos fins de semana. Sempre viveu a trabalhar. Sempre. As férias resumiam-se, e continuam a resumir-se, a duas semanas por ano. As únicas de que me lembro desde que sou pequena.
No final do ano passado começou a dizer que este seria o ano em que finalmente ia parar. O ano da reforma. O ano em que, pela primeira vez, podia começar a pensar nele. Mas depois… aconteceu a minha vida. E a minha separação. E, sem eu lhe pedir, decidiu continuar a trabalhar. Continuar a fazer contas. Continuar a adiar o descanso. Porque tinha uma filha que precisava dele. E talvez seja isso que faz um pai. Quando nós caímos… eles esquecem-se de que também estão cansados.
Liga-me todos os dias. Todos. Às vezes durante cinco minutos. Outras durante uma hora. Há dias em que me ouve repetir exatamente a mesma conversa pela décima vez. Há dias em que nem falamos da separação. Conta-me qualquer coisa completamente banal. Pergunta-me se já almocei. Diz que só ligou porque se lembrou de uma coisa qualquer. Mas eu sei. Ele só queria perceber como é que eu estava. Os pais têm esta maneira discreta de amar. Fingem que ligam por causa de uma desculpa qualquer… quando, na verdade, só querem ter a certeza de que continuamos de pé.
Sempre achei que o meu pai ia lidar muito mal com esta separação. Sempre foi um homem conservador. Eu fui sempre a filha mais liberal. Curiosamente… agora parece que invertemos os papéis. E é ele que está constantemente a tentar que eu interiorize que às vezes amar também é aceitar. Deixar ir. É ele que me lembra constantemente que uma família pode mudar sem deixar de ser uma família. Que me está a tentar ajudar a não endurecer o coração.
E depois há os meus filhos. Nunca vou conseguir agradecer-lhe o suficiente pelo avô que decidiu ser. Há dias em que chega com balões. Outros em que transforma um jantar normal numa festa. Inventa histórias que eu nunca conseguiria inventar. Corre atrás do meu filho mais velho até as pernas lhe dizerem que já chega. E ainda assim continua. Porque o neto ainda não se cansou. Anda com o mais novo ao colo durante horas. Mostra-lhe árvores. Pássaros. Carros. Flores. Como se estivesse a apresentar-lhe o mundo inteiro pela primeira vez.
E há outra coisa que me tem emocionado profundamente. Ultimamente, quando estamos todos juntos, e vou mudar a fralda ao mais novo, ele tira-ma das mãos. Olha para mim muito sério e começa a dizer: “Avô, avô, avô”. Dá a fralda ao avô. Quer que seja o avô a mudá-la. E não descansa enquanto não é. Sorrio. Porque até agora eu só tinha visto isto a acontecer comigo. E nestes instantes percebo que o meu filho também já encontrou outro colo onde se sente completamente seguro. E talvez não exista herança maior do que essa.
Mas há outra imagem que nunca vou esquecer. Ver o meu pai, aos setenta anos, dentro da minha casa… a lavar roupa. A estendê-la. A apanhá-la. A dobrá-la. A aspirar o chão. A passar a esfregona. A tratar do jantar. A meter a mesa. A arrumar brinquedos espalhados pela sala. A tratar da minha vida quando eu não consegui. Nunca lhe pedi. Ele simplesmente viu que eu já não conseguia fazer tudo sozinha. E fez. Sem discursos. Sem cobranças. Sem me fazer sentir pequena. Apenas porque era preciso.
Às vezes perguntam-me onde encontro força para continuar. A verdade é que nem sempre encontro. Há dias em que a força tem o nome do meu pai. Porque há pais que nos ensinam a andar quando somos pequenos. E depois passam o resto da vida… prontos para nos amparar, caso um dia voltemos a cair.
Sempre achei que crescer significava deixar de precisar dos nossos pais. Hoje acho exatamente o contrário. Crescer é perceber tudo aquilo que eles fizeram em silêncio… quando ainda éramos pequenos demais para reparar.
Pai… espero que um dia consigas descansar. Espero mesmo. Mas, antes disso, precisava que soubesses uma coisa. Os meus filhos vão crescer a acreditar que os avós fazem magia por tua causa. E eu vou crescer para o resto da vida a saber que a fazes mesmo.
Há pais que nos dão a vida quando nascemos. E há outros momentos em que, sem darem por isso, voltam a dar-nos vida outra vez. Este tem sido um deles.
Há quem possa ler este texto e chamar-lhe mimo. Dizer que sou mimada. Ou “a menina do papá”. E talvez seja. Sempre fui. Mas não chamaria a isto mimo. Chamaria a isto amor. Porque mimo é receber sem precisar. E em demasia. Amor é alguém continuar a aparecer quando a vida nos tira o chão. E se um dia os meus filhos amarem os filhos deles da forma como o meu pai continua a amar a filha dele… então acho que fizemos todos alguma coisa muito bem. Porque a verdade é esta: há pais que passam a vida inteira a ensinar os filhos a serem independentes. Mas, quando eles caem, lembram-lhes que independência nunca significou ter de enfrentar tudo sozinho. E talvez seja essa a maior prova de amor que um pai pode dar a um filho. Obrigada!

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