(e fiquei sem palavras. Porque ele tinha razão. Não sobre eu estar a mentir. Mas sobre o que ele estava a sentir)
Ontem à noite fui deitar os meus filhos. Era o último dia de férias. O mais novo adormeceu quase imediatamente. O mais velho demorou mais um bocadinho. Contei-lhe a história habitual. Dei-lhe um beijo. Fiz-lhe festas no cabelo. Depois ficou tudo em silêncio. Achei que já estivesse a dormir. Ou quase. Até que ouvi a voz dele. Baixinha. Entre lágrimas.
Aquele tinha sido um dia difícil. Tive de me chatear com ele várias vezes. Respirei fundo umas quantas. Fui buscar doses de paciência onde já nem sabia que existiam. Por isso, quando o ouvi começar a falar, pensei que vinha aí o habitual “desculpa mãe”. Mas não.
Amanhã vai dormir com o pai. Até agora, o pai estava a viver com a mãe. Entretanto arranjou outra casa. E amanhã vai ser o primeiro dia em que o meu filho vai conhecê-la. A primeira noite que vai lá dormir. E foi então que ele me disse:
– “Mãe… quero ir para uma casa nova. Mas só se tu também fores”
Perguntei-lhe se estava a falar da casa nova do pai. Disse que sim. Expliquei-lhe, com a calma que consegui arranjar, que eu não podia ir viver para a casa do pai. Que nós nos tínhamos separado. Que eu gostava muito de poder estar sempre com ele, mas que agora já não podíamos viver todos juntos. Que tínhamos de aprender a viver de outra forma. Que o mais importante era que continuávamos todos a gostar muito dele e do irmão. E que, acontecesse o que acontecesse, eu estaria sempre com ele quando precisasse de mim.
Ele interrompeu-me:
– “Não, mãe. Isso não é verdade. Estás a ser mentirosa”
Parei. Perguntei-lhe o que é que não era verdade. E ele respondeu:
– “Isso não é verdade porque quando eu estou com o pai e preciso de ti… tu não estás comigo. Então estás a mentir”
E fiquei sem palavras. Porque ele tinha razão. Não sobre eu estar a mentir. Mas sobre aquilo que ele sentia. Eu posso dizer-lhe que estou sempre com ele. Posso dizer-lhe que o meu amor vai com ele para qualquer casa. Posso dizer-lhe que pode ligar-me. Que pode chamar-me. Que pode pensar em mim. Que eu estou a cinco minutos. Que nunca está sozinho. Mas quando ele está numa casa e eu estou noutra… eu não estou. E talvez seja esta uma das partes mais difíceis de explicar às crianças.
Nós, os adultos, tentamos encontrar palavras bonitas para tornar tudo mais suportável: “duas casas”; “duas famílias”; “mais amor”; “novas rotinas”; “os pais continuam a amar-vos da mesma forma”… E tudo isso pode ser verdade. Mas, às vezes, uma criança só quer uma coisa muito simples. A pessoa que ama. Ali. Ao lado dela. E não há frase bonita que consiga substituir isso. Dei-lhe um beijo. Peguei-lhe na mão. Abracei-me a ele e perguntei se queria ouvir outra história antes de adormecer. Disse que sim. Comecei a contar. E, a meio da história, adormeceu.
Já eu fiquei ali. Entre ele e o irmão. Uma mão a abraçar cada um. Sem me mexer. A ouvir a respiração dos dois. E a pensar em tudo o que vamos ter de aprender daqui para a frente. A casa nova. As novas rotinas. As noites longe. As saudades. O choro. As perguntas. As respostas que ainda não tenho. E, sobretudo, em como explicar aos meus filhos que algumas coisas mudaram… sem lhes fazer sentir que perderam o direito de desejar que elas fossem diferentes.
As lágrimas começaram a cair devagar. Não as limpei. Fiquei simplesmente ali. A aproveitar cada segundo ao lado deles enquanto os tinha comigo. A abraçá-los. A ouvi-los respirar. E a desejar uma coisa completamente impossível. Que aquele momento durasse para sempre. Porque talvez seja isso que mais queremos quando somos pais. Não voltar atrás. Não mudar tudo. Apenas ter os nossos filhos perto o suficiente para que, quando precisarem de nós, possamos estar lá. Sem precisar de explicar onde estamos. Sem precisar de dizer “liga-me”. Sem precisar de prometer que o nosso amor atravessa paredes, ruas e duas casas.
Porque, naquela noite, o meu filho ensinou-me uma coisa que eu já sabia… mas que ainda não tinha conseguido sentir daquela forma: há uma diferença enorme entre estar sempre no coração de alguém… e poder estar ao lado dele quando ele precisa de colo.

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