Há coisas numa separação que ninguém vê. E algumas delas são muito feias.

(porque nem todas as histórias acabam com respeito, calma e maturidade. E há uma parte da separação de que quase ninguém fala: a raiva. Aquela que sentimos quando ainda estamos demasiado magoados para conseguir ser tudo aquilo que gostaríamos)

Nos últimos dias não tenho escrito muito. Não tenho conversado. Não tenho respondido à maioria das mensagens que recebo aqui. E, na verdade, quase nem tenho vindo aqui. Quando digo aqui, digo à minha página. E não é porque não tenha coisas para dizer. Talvez seja precisamente o contrário. Tenho demasiadas.

Nos últimos meses tenho sentido coisas que nem sempre são fáceis de digerir. Raiva. Desilusão. Tristeza. Uma espécie de cansaço que não é só físico. É o cansaço de ter de pensar demasiado antes de falar. De respirar fundo antes de responder. De tentar encontrar racionalidade quando tudo dentro de nós quer simplesmente gritar.

Há dias em que me sinto capaz de tudo. Há outros em que me custa simplesmente continuar. E talvez o mais difícil seja que não há espaço para parar. Porque algures no meio disto tudo estão os meus filhos. Sempre eles. E o amor que sinto por eles obriga-me a continuar a funcionar mesmo nos dias em que, por dentro, não estou a funcionar coisa nenhuma.

Tenho de ser racional. Tenho de ser prática. Tenho de falar de horários, agendas, roupas, refeições, escola, fins de semana, férias. Tenho de discutir a vida dos meus filhos como se estivesse a discutir qualquer outra coisa. Como se não me doesse. Como se cada conversa não trouxesse consigo tudo aquilo que aconteceu. Tenho de brincar. Manter rotinas. Sorrir. Fazer planos. Fazer parecer que está tudo bem. Quando, às vezes, por dentro, ainda me sinto a sangrar.

E depois há aquela coisa estranha de ter de olhar para o pai dos meus filhos e falar com ele como se os últimos quinze anos das nossas vidas não tivessem acontecido. Como se eu não soubesse exatamente quem ele foi. Como se ele fosse apenas uma pessoa com quem tenho de resolver assuntos relacionados com duas crianças.

Mas não é assim tão simples. Porque eu não olho para uma pessoa. Olho para várias versões da mesma pessoa. E talvez seja isso que torne tudo isto ainda mais difícil. Porque há ali o homem que eu amei. O meu melhor amigo. O amor da minha vida. A pessoa com quem partilhei quinze anos. A pessoa com quem fui extremamente feliz. A pessoa que amei sem reservas. Que continuo a amar. E que, de alguma forma, vou provavelmente amar sempre. Há o homem com quem, há um ano, eu me casaria outra vez. Com quem imaginava envelhecer. Essa pessoa existiu. Eu sei que existiu. Eu vivi-a. Fui feliz com ela. Muito feliz.

Depois, também há o homem que me deixou. Não sei exatamente quando é que apareceu. Não sei em que momento começou a ocupar o lugar daquele que eu conhecia. Mas a verdade é que, em algum momento, veio. E ficou. E foi esse homem que me desiludiu de uma forma que ainda hoje tenho dificuldade em explicar. Foi esse homem que me traiu. E talvez esta seja uma das palavras mais difíceis que já escrevi. Porque não foi apenas aquilo que aconteceu. Foi o que aquilo fez comigo. Fez-me duvidar de mim. Daquilo que eu via. Daquilo que eu sabia. Da mulher que eu era.

Houve coisas que eu sabia e que, ainda assim, me foram negadas na cara. Ditas com uma calma quase desconcertante. Com delicadeza. Com segurança. Com aquela assertividade tranquila que, às vezes, é tão convincente que nos faz começar a duvidar de nós próprios. Mesmo quando temos a certeza. E talvez seja isso que ainda me revolta. Não ter sido apenas enganada. Mas ter sido levada a questionar aquilo que eu sabia que era verdade.

Ter olhado para mim própria e perguntado se estaria a exagerar. Se estaria a imaginar. Se estaria a ver coisas onde elas não existiam. E, no meio disso tudo, senti-me traída também como mulher. Não quero explicar mais do que isso. Talvez nem consiga. Mas há feridas que não precisam de todos os detalhes para doerem.

E a verdade é que todos nós podemos sobreviver a uma relação que acaba. Podemos sobreviver ao facto de não sermos correspondidos. O que é muito mais difícil é olhar para alguém que conhecemos há quinze anos e não reconhecer a forma como nos trata quando estamos mais vulneráveis.

E é aí que aparece a terceira pessoa. O pai dos meus filhos. Porque, apesar de tudo, ele continua a ser isso. E é um bom pai. É. Não consigo escrever isto de outra maneira. É um bom pai. Os meus filhos adoram-no. Precisam dele. E eu quero que tenham um pai presente, atento e próximo. Quero isso para eles. Mesmo quando dói em mim. E talvez esta seja a parte mais difícil de todas. Porque o homem que me deixou e o pai dos meus filhos são a mesma pessoa. E eu não consigo separá-los completamente.

Às vezes olho para ele e vejo o homem que amei. Outras vezes vejo o homem que me magoou. E outras vezes consigo ver apenas o pai dos meus filhos. A pessoa que pega neles ao colo. Que brinca com eles. Que os ama. Que lhes faz falta. Que vai fazer parte da vida deles para sempre.

Mas depois ainda há aquela outra pessoa. Aquela com quem tenho de lidar. A pessoa com quem vou ter de falar durante o resto da minha vida porque temos dois filhos. Uma pessoa que tem um bocadinho de todas as outras. Do homem que amei. Do homem que me deixou. Do pai que os meus filhos precisam. E talvez seja por isso que, às vezes, consigo falar com ele com alguma racionalidade. Consigo concentrar-me no que ficou. No pai que é. Nas coisas boas. Naquilo que os meus filhos recebem dele. Mas, caramba… Nem tudo é bonito.

Há dias em que olho e ainda consigo ver o homem que amei. Há dias em que vejo o homem que me deixou. E há dias em que só consigo ver aquele que me partiu. O homem que me deixou aqui. De coração partido. A tentar reconstruir uma vida que eu não escolhi. A tentar inventar uma vida paralela onde os meus filhos não existem durante parte do tempo. E, depois, a ter de sobreviver feliz quando estou com eles. Porque quando eles estão comigo, eu quero estar inteira. Quero que tenham a mãe deles. Não quero que tenham uma mãe triste porque os dias anteriores foram passados sem eles. Não quero que sintam a minha ansiedade. Não quero que sintam a minha raiva. Não quero que tenham de carregar nada disto. Então sorrio. Brinco. Dou colo. Dou de mamar. Faço jantares. Dou banhos. Leio histórias. Rio das coisas absurdas que dizem. E, às vezes, estou a fazer tudo isso enquanto alguma coisa dentro de mim ainda está a gritar.

É fácil falar sobre isto quando estamos de fora. É fácil dizer que as crianças se adaptam. Que é importante haver dois pais. Que temos de ser adultos. Que temos de ser práticos. Tudo isso é verdade. Mas há uma diferença enorme entre saber uma coisa com a cabeça e conseguir vivê-la com o coração. Porque não há racionalidade que me explique o que sinto quando vejo um filho chorar porque queria os dois pais. Não há agenda que me faça sentir bem quando um bebé quer colo ou quer mamar e eu sei que naquele momento não posso simplesmente pegar-lhe e ficar com ele. Não há calendário que consiga explicar a uma mãe porque é que o filho que ela ama tem de aprender tão cedo que, às vezes, precisa dela e ela não está.

Eu sei que o pai deles não vive necessariamente estas situações da mesma maneira que eu. Sei que foi educado de outra forma. Sei que cresceu numa família onde estas situações talvez sejam vistas com uma naturalidade que eu não consigo ter. Onde esta forma de organizar a vida depois de uma separação não é uma exceção. É simplesmente a regra. E consigo perceber esse lado mais prático.

Consigo perceber que, para ele, talvez seja possível olhar para tudo isto como uma questão de organização. De rotinas. De horários. De casas. De dias. Mas tenho pena é que não consiga sentir aquilo que, para mim, é tão evidente. Que estas situações deviam ser a exceção. Não a regra. Que talvez devêssemos fazer tudo para que os nossos filhos não tivessem de aprender tão cedo a viver sem um dos pais quando precisam dele. E eu sei que isto parece contraditório. Porque, ao mesmo tempo que escrevo isto, também sei que os meus filhos precisam do pai. E quero que precisem dele. Quero que o amem. Quero que tenham saudades dele. Quero que corram para ele quando o veem. Quero que tenham memórias bonitas com ele. Não quero roubar-lhes nada disso.

Mas também não quero fingir que não me custa. As duas coisas podem existir ao mesmo tempo. Posso querer que eles sejam felizes com o pai e, ao mesmo tempo, morrer um bocadinho por dentro quando os vejo ir. Posso reconhecer que ele é um bom pai e continuar magoada com o homem que me deixou. Posso agradecer aquilo que ele faz pelos meus filhos e continuar zangada com aquilo que aconteceu entre nós. Posso amar uma pessoa e não gostar daquilo que ela fez. Posso ter saudades de quem ele foi e não querer voltar para aquilo que somos agora.

E talvez esta seja uma das partes mais difíceis de explicar a quem está de fora. Não existe uma emoção única. Existe tudo ao mesmo tempo. Amor. Raiva. Saudade. Desilusão. Gratidão. Tristeza. Ressentimento. Culpa. E, às vezes, até carinho. Tudo misturado. Tudo a acontecer dentro da mesma pessoa. Dentro de mim. E talvez seja por isso que os últimos meses tenham sido tão difíceis. Porque houve férias cheias de coisas boas. E também houve dias muito maus. Houve momentos em que me senti feliz. E outros em que me senti completamente destruída. Houve gargalhadas. E houve discussões. Houve palavras bonitas. E houve palavras feias. Da minha parte também. Chamei-lhe nomes. Disse coisas que talvez não devesse ter dito. Talvez tenha dito coisas de que não me orgulho. E não vou fingir aqui que fui sempre a pessoa racional, serena e equilibrada que às vezes pareço ser quando escrevo. Não fui. Há momentos em que a tristeza se transforma em raiva. Há momentos em que a desilusão se transforma em crueldade. Há momentos em que estamos tão magoados que queremos que a outra pessoa sinta pelo menos uma pequena parte daquilo que estamos a sentir. E isso também é feio. Mas é humano.

O importante, para mim, é não deixar que essa parte de mim seja aquela que os meus filhos vão conhecer. Não quero que um dia olhem para trás e se lembrem de uma mãe que passou a vida a falar mal do pai. Não quero que tenham de escolher lados. Não quero que sintam que ao amar o pai me estão a trair. Não quero que carreguem a minha raiva. Porque a raiva é minha. A dor é minha. A desilusão é minha. Eles não têm de as herdar. E talvez seja essa a parte mais difícil de todas. Porque eu tenho direito a estar zangada. Tenho direito a estar triste. Tenho direito a estar desiludida. Tenho direito a não achar bonito aquilo que aconteceu. Tenho direito a dizer que há coisas que não perdoo. Tenho direito a admitir que há dias em que não consigo ser racional. Mas também tenho uma responsabilidade. A de não transformar aquilo que me fizeram naquilo que eu faço aos meus filhos. E é por isso que continuo a tentar. Mesmo quando não me apetece. Mesmo quando estou cansada. Mesmo quando estou zangada. Mesmo quando tenho vontade de dizer tudo. Porque há uma coisa que me obriga a parar. Eles. Os meus filhos. E talvez seja isso que ainda me mantém sã no meio de tudo isto. Não o facto de eu já ter ultrapassado. Não ultrapassei. Não o facto de já ter perdoado. Não perdoei tudo. Nem o facto de já ter aceitado. Há coisas que ainda estou a tentar aceitar. Outras que nunca vou conseguir aceitar. É simplesmente o amor. O amor que tenho por eles. Porque no meio de toda esta confusão, há uma coisa que continua absolutamente clara. Eu quero que eles fiquem bem. Mesmo que para isso tenha de engolir algumas palavras. Mesmo que tenha de fechar algumas portas. Mesmo que tenha de sorrir quando me apetece chorar. Mesmo que tenha de aprender a falar com alguém que já não reconheço da mesma maneira.

Talvez um dia isto doa menos. Talvez um dia consiga olhar para tudo isto sem sentir tanta raiva. Talvez um dia consiga separar completamente as pessoas que existem dentro da mesma pessoa. Hoje ainda não consigo. Hoje há dias em que olho e vejo o homem que amei. Há dias em que vejo o homem que me deixou. Há dias em que vejo o pai dos meus filhos. E há dias em que vejo tudo ao mesmo tempo. E talvez seja essa a parte mais difícil de uma separação que quase ninguém fala. Não perdemos apenas uma pessoa. Perdemos também a versão dessa pessoa que conhecíamos. E, às vezes, temos de continuar a conviver com todas as versões que sobraram. Com aquela que amámos. Com aquela que nos magoou. Com aquela que é pai. Com aquela que já não conhecemos. E temos de aprender a fazê-lo sem deixar que a nossa raiva seja maior do que aquilo que queremos proteger.

Eu ainda estou a aprender. Ainda estou zangada. Ainda estou triste. Ainda estou desiludida. Ainda há dias em que me custa imenso. Mas continuo aqui. Não porque esteja tudo bem. Mas porque eles estão. E, por eles, vou continuar a tentar estar também.

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