(porque há momentos que parecem pequenos até percebermos que um dia podemos deixar de lá estar)
Tenho várias memórias das minhas festas de aniversário quando era miúda. A minha mãe fazia questão de assinalar aqueles dias à grande. Não havia uma decoração toda elaborada, como tantas vezes vemos hoje. Não havia um tema. Não havia mesas perfeitas, nem festas pensadas ao pormenor. Não havia nada disso. Mas havia família. Muitos amigos. Muito espaço para correr. E muitos jogos para brincar.
Tenho vagas recordações da minha mãe, nos dias anteriores, a cozinhar pela noite dentro. A fazer brigadeiros. Bolinhos de cenoura. Tudo. E a enfeitá-los um a um com amor e dedicação. Ela e uma amiga que me tratou sempre como filha.
Dos dias depois lembro-me das brincadeiras com água. Dos balões. Dos jogos que acabavam com toda a gente cheia de farinha na cara. Lembro-me da confusão. Das gargalhadas. Das crianças a correr de um lado para o outro. E lembro-me do sorriso com que a minha mãe ficava quando o dia acabava.
Se perguntarem a alguns dos meus amigos dessa altura, todos se lembram dos meus aniversários. Todos queriam ir aos meus anos. E caramba… Às vezes acho que esperava o ano inteiro por aquele dia. Não me lembro dos bolos que tive. Não me lembro dos presentes que recebi. Não me lembro da decoração, embora certamente existisse. Mas lembro-me das sensações. Da felicidade. Dos sorrisos espalhados por todo o lado. Dos corações cheios. E talvez seja isso que uma criança guarda. Não aquilo que custou dinheiro. Não aquilo que ficou bonito nas fotografias. Mas aquilo que a fez sentir importante.
Hoje sou mãe. E sempre quis fazer pelos meus filhos um bocadinho daquilo que a minha mãe fez por mim. Não consigo fazer aquelas festas. Vivo num apartamento. Não tenho o espaço que os meus pais tinham. Não tenho a família por perto. E não tenho braços suficientes à minha volta para fazer tudo aquilo que seria preciso sem alguém olhar e pensar que é um exagero ou uma coisa desnecessária. E não eram coisas caras. Nem chiques. Eram coisas simples. Mas que davam trabalho. E que eram feitas por alguém que achava que aquele dia merecia esse trabalho.
Nos últimos anos, temos convidado os amiguinhos do meu filho mais velho e ido a um parque festejar os anos dele. Levamos uma mesa. Alguns balões. Os miúdos brincam. Nós cantamos os parabéns. E ele fica feliz. Isso chega-me. Mas há uma coisa que faço desde que eles nasceram.
Quando acordam no dia do aniversário, quero que percebam logo que aquele não é um dia qualquer. E por isso na noite anterior faço um bolo. Coloco-o na mesa. Escolho alguns presentes de que tenho a certeza que vão gostar. Encho uns balões. Vou buscar uns bonecos. Penduro qualquer coisa que tenha por casa. E está feita a decoração. Depois acordo-os com música, beijinhos e abraços. E quando entram na sala e olham para a mesa… Estão lá aqueles olhos. Aqueles olhos a brilhar. E o meu coração enche-se. Porque naquele momento eles sabem. Sabem que são importantes. Sabem que aquele dia é especial. Sabem que o dia em que nasceram é um dia que merece ser celebrado. E, para mim, nunca vai existir nada mais importante para celebrar do que o dia em que eles nasceram.
Este ano foi diferente. Era o primeiro aniversário depois da separação. Combinei com o pai deles ir almoçar com o nosso filho à escola. Ainda lhe perguntei se queria vir cá a casa de manhã cedo. Dar-lhe um beijinho quando acordasse. Cantarmos os parabéns juntos. Como tínhamos feito todos os anos. Não quis. Disse que já íamos estar todos juntos na escola. Eu fiquei triste. Porque, para mim, aquele era um daqueles momentos em que, independentemente de tudo o que estivesse a acontecer entre nós, podíamos ter estado juntos. Podíamos ter posto tudo de lado durante meia hora. Podíamos ter sido apenas os pais dele. Podíamos ter celebrado juntos o dia em que o nosso filho nasceu. Mas não estivemos.
Ainda assim, fiz o que faço todos os anos. O bolo era de laranja. Os presentes eram uma bola do Mundial e uns bonecos do Toy Story. Havia balões. Havia umas faixas decorativas que tinham sobrado do Dia da Criança. Havia super-heróis agarrados a elas. E a música dos parabéns do Panda a tocar ao fundo.
O irmão foi o primeiro a acordar. Foi ele que me acordou com um beijinho. E eu disse-lhe baixinho: “O mano hoje faz anos. Queres ir ver a surpresa dele?”. Disse que sim. E sorriu. Mostrei-lhe a sala. Fez uma festa. Depois perguntei-lhe se queria ir acordar o irmão comigo. Disse que sim. Fomos para a cama. Deitámo-nos os dois ao lado dele e enchemo-lo de beijinhos. Ele acordou. O irmão apontou logo para a porta. “Olha”. E depois: “Anda”. E deu-lhe a mão. Foram os dois para a sala. E começaram a dançar. Pouco depois, o mais velho perguntou-me se o pai vinha a casa naquela manhã. Disse-lhe que o pai não conseguia vir, mas que ia estar com ele na escola. Aceitou a resposta. E continuou a dançar. Depois fomos cantar os parabéns. Nós os três. Eu. Os dois irmãos. E, de repente, também todos os super-heróis estavam à volta do bolo. O meu coração estava cheio. O meu filho estava feliz. E isso era tudo o que eu queria.
Mas havia ali uma presença em falta. Uma pessoa que devia ter estado naquele momento. E eu nem soube explicar porque é que não estava. E nem precisei. Talvez porque algumas ausências sejam demasiado complicadas para explicar a uma criança. Talvez porque haja coisas que nós, adultos, conseguimos compreender com a cabeça e que o coração de uma criança simplesmente aceita. O pai não estava naquela sala. Mas o meu filho estava feliz. E isso bastou-me. Só que, enquanto olhava para ele, pensei numa coisa que me assustou.
E se um dia ele fizer anos numa manhã em que está com o pai? E se um dia eu não puder estar lá quando acordar? E se não puder fazer o bolo? Encher os balões? Escolher os presentes? Ir buscá-lo à cama? Cantar-lhe os parabéns ainda com a voz meio adormecida? E se um dia forem outras mãos a abrir-lhe a porta e a mostrar-lhe a surpresa? Terá surpresa?
Choro só de imaginar. Porque eu sei que ele vai continuar feliz. Eu sei que vai continuar a ter um aniversário. Eu sei que vai continuar a ser amado. Eu sei que se vai adaptar. Mas há uma coisa que talvez ninguém compreenda. Eu não quero apenas que ele tenha aniversários felizes. Eu quero viver alguns deles. Quero estar lá. Quero ver aqueles olhos. Quero ouvir aquele “uau”. Quero ser eu a vê-lo acordar mais um ano. Quero guardar a memória da cara dele quando entra na sala e percebe que é o dia dele. Quero estar nos bastidores das pequenas coisas que, para ele, um dia talvez nem sejam lembranças. Mas que, para mim, são uma vida inteira. Porque um dia ele provavelmente não se vai lembrar do bolo de laranja. Nem da bola. Nem dos bonecos. Nem dos balões. Talvez nem se lembre de quem estava naquela sala. Mas eu vou lembrar-me. Vou lembrar-me de cada aniversário em que pude estar. De cada manhã em que o acordei. De cada vela que ajudei a apagar. De cada vez que o vi crescer mais um ano diante dos meus olhos. E talvez seja isso que mais me assusta na separação. Não é apenas perder dias. É começar a perceber que alguns momentos da infância dos meus filhos podem acontecer sem mim. E há uma diferença enorme entre saber que eles estão felizes e estar lá para assistir à felicidade deles.
Este ano eu estive. E enquanto eles dançavam naquela sala, com os super-heróis à volta do bolo e a música dos parabéns a tocar, pensei que, aconteça o que acontecer, quero continuar a assinalar estes momentos. Mesmo que um dia a casa seja outra. Mesmo que o bolo seja feito noutro lugar. Mesmo que haja outra mesa. Porque há coisas que não quero perder. E uma delas é esta. A manhã em que os meus filhos acordam mais um ano. A manhã em que, por alguns minutos, o mundo inteiro me parece resumir-se àqueles olhos a brilhar. A manhã em que me lembro, mais uma vez, da maior coisa que alguma vez aconteceu na minha vida. O dia em que eles nasceram. E talvez uma mãe seja isto. Alguém que passa a vida a celebrar o dia em que os filhos chegaram ao mundo. E que, mesmo quando a vida lhe tira a possibilidade de estar presente em todos os momentos, continua a agradecer por cada manhã em que ainda pode abrir a porta, olhar para eles e dizer: “Parabéns, meu amor”.
Porque eles podem crescer. As famílias podem mudar. As casas podem mudar. As rotinas podem mudar. Mas há uma parte de mim que vai querer estar naquela manhã para sempre.

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