Na sexta-feira, fiquei com ele.

(não posso controlar o tempo, mas posso enchê-lo de vida. Porque às vezes, um dia inteiro pode ser suficiente para tornar uma despedida um bocadinho menos dolorosa)

Na sexta-feira, o meu filho mais velho ia passar o fim de semana prolongado com o pai. Na semana passada já tinha dormido com ele na segunda e na terça. Ficou comigo na quarta e na quinta. E na sexta, antes de ir, fiz-lhe uma surpresa. Fiquei com ele em casa. Só nós os dois. Montámos legos. Jogámos futebol como se não houvesse amanhã. Vimos desenhos animados. Montámos um puzzle. Passeámos. E almoçámos fora.

Há muito tempo que me pedia para ir almoçar a uma pizzaria. Mas, logisticamente, nunca tinha sido possível. Desta vez estávamos sozinhos. Por isso perguntei-lhe: “Queres ir à pizzaria?”

Disse logo que sim. Arranjámo-nos e saímos de casa. Fomos a uma pizzaria aqui na nossa rua. Mas, quando lá chegámos, olhou para mim e disse-me que não era ali que gostava de ir. Gostava de ir a outra. Perguntei-lhe qual. “Vem. Eu mostro-te”, respondeu. E lá foi ele a indicar-me o caminho. Até outra pizzaria, também aqui perto, onde nunca tínhamos ido.

– “É aqui, mãe. Quando passamos por aqui cheira muito bem e eu gostava de comer aqui.”

Perguntaram-nos se queríamos ficar lá dentro ou na esplanada.

– “Lá dentro”, respondeu ele. De imediato.

– “Porquê?”, perguntei-lhe.

– “Porque cheira melhor. Cheira muito bem”

E pronto. Entrámos. Pedimos as pizzas. Chegaram os pratos e, com eles, uns desenhos e uns lápis para pintar. Almoçámos. Conversámos. Pintámos. Depois fomos a outro café comer um gelado. Os dois. Sem pressas. Sem horários. Sem mais ninguém. Só nós.

Ao final do dia, o pai veio buscá-lo. E ele chorou. Eu estava sentada no sofá e ele sentou-se ao meu lado, agarrado a mim. Dizia que não queria ir. Que queria ficar comigo. E repetia: “Mamã, mamã, mamã”.

Mas desta vez foi diferente. Desta vez, não me doeu tanto como das outras. Não porque custasse menos vê-lo ir. Não porque não quisesse que ficasse. Mas porque naquele dia tivemos um dia inteiro. Um daqueles dias que eu precisava há muito tempo. Um daqueles dias que não ficam pelo meio. Que não são feitos de pressas, de trocas, de horários, de preparar malas, de pensar no próximo dia. Um dia só nosso. E talvez seja isso que estou a aprender. Que nem sempre consigo escolher quanto tempo tenho com os meus filhos. Mas posso escolher o que faço com o tempo que tenho. Posso aproveitar uma manhã. Posso aceitar um convite para almoçar numa pizzaria. Posso seguir o meu filho até uma rua que nunca tinha reparado bem e descobrir que ele já sabia exatamente onde queria ir. Posso ficar dentro de um restaurante porque “cheira melhor”. Posso pintar desenhos. Comer um gelado. Jogar futebol. Montar legos. Rir. Ficar. Estar. E guardar. Guardar tudo.

Porque há dias em que a despedida chega sempre demasiado depressa. E há outros em que, quando chega, pensamos: Ainda bem. Ainda bem que hoje tivemos isto. Ainda bem que houve tempo. Ainda bem que fomos só nós os dois. Ainda bem que, desta vez, quando ele chorou porque não queria ir, eu não senti apenas a falta que me ia fazer. Senti também a certeza de que tínhamos aproveitado. E isso fez diferença. Porque eu sabia que ele ia ter um bom fim de semana. Sabia que ia divertir-se. Sabia que ia estar bem. E eu tinha aquele dia. A nossa pizzaria. O cheiro que ele tinha escolhido. Os desenhos. O gelado. Os legos espalhados pela sala. As bolas pelo chão. As perguntas. As gargalhadas. As pequenas coisas que, no meio de uma vida que tantas vezes parece dividida em pedaços, foram só nossas.

Talvez não consiga impedir que ele tenha saudades de mim. Talvez não consiga impedir que chore quando o pai chega para o buscar. Talvez não consiga fazer com que todos os dias sejam nossos. Mas posso tentar fazer com que os que são tenham tudo. E, naquele dia, tiveram. Quando ele saiu pela porta, fiquei a olhar para ele. E, pela primeira vez em muito tempo, a despedida não levou tudo. Deixou-me um dia inteiro. E, naquele momento, isso foi suficiente.

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