(há dias em que percebemos que estamos a sarar nas coisas mais pequenas)
Ontem estava à procura de um vídeo específico da minha sobrinha no telemóvel. Num daqueles grupos de família onde, ultimamente, quase só cabem fotografias e vídeos dos mais pequeninos. As coisas que vão acontecendo. Os primeiros passos. As brincadeiras. As caras novas. Os momentos que alguém achou importantes o suficiente para partilhar com a família.
Estava à procura de um vídeo específico. Deslizava para cima. Para baixo. Procurava entre fotografias e vídeos. Até que reparei numa coisa. Havia ali imensas fotografias e vídeos dos meus sobrinhos que eu ainda não tinha visto. E eu parei. Não sei explicar muito bem o que aconteceu naquele momento. Mas parei de procurar o vídeo que queria. E comecei a ver. Vi uma fotografia. Depois outra. Depois um vídeo. Depois outro. Vi tudo. Tudo o que tinham partilhado nos últimos meses.
E foi aí que percebi a quantidade de coisas que tinha deixado escapar. Ou melhor. A quantidade de coisas que tinha visto, mas não tinha realmente visto. Porque o último ano foi duro. Os últimos meses foram particularmente complicados para mim. Houve dias em que estava a funcionar. A trabalhar. A cuidar dos meus filhos. A responder a mensagens. A fazer compras. A tratar da casa. A fazer tudo aquilo que tinha de ser feito. Mas estar a fazer tudo não significa que estejamos verdadeiramente presentes. E acho que, durante muito tempo, foi isso que me aconteceu. Eu estava. Mas não estava verdadeiramente.
As fotografias chegavam e eu via-as por dois segundos. Os vídeos apareciam e eu pensava: depois vejo. As mensagens ficavam por abrir. As coisas iam acontecendo à minha volta enquanto eu tentava, simplesmente, conseguir chegar ao fim de cada dia. E ontem, sem estar à procura disso, percebi que alguma coisa tinha mudado. Porque eu parei. E vi. Vi mesmo. Vi os meus sobrinhos a crescer. Vi caras que mudaram. Vi brincadeiras que não conhecia. Vi momentos em que não estive. Vi coisas que aconteceram enquanto eu estava demasiado ocupada a tentar sobreviver ao meu próprio mundo.
Pela primeira vez não senti apenas tristeza pelo que perdi. Senti uma coisa diferente. Senti-me feliz. Feliz de os ver. Feliz por eles estarem bem. Feliz por fazer parte daquela família. Feliz por ter o privilégio de assistir, mesmo que às vezes à distância, à vida daqueles miúdos. E pensei que talvez isto também seja melhorar. Talvez curarmo-nos não seja acordar um dia e perceber que já não dói. Talvez seja isto. Voltar a reparar. Voltar a ter espaço dentro de nós para olhar para os outros. Voltar a conseguir ficar a ver um vídeo até ao fim sem sentir que temos de fugir para outra coisa. Voltar a responder a uma mensagem. Voltar a querer saber. Voltar a estar.
Porque há alturas em que a nossa própria dor ocupa tanto espaço que quase não sobra lugar para mais nada. Nem para as coisas boas. Nem para as pessoas que amamos. Nem para os momentos que continuam a acontecer enquanto estamos a tentar perceber como vamos ficar de pé. E talvez ontem tenha sido a primeira vez, em muito tempo, em que senti que já havia um bocadinho mais de espaço dentro de mim. Espaço para os meus sobrinhos. Para as fotografias. Para os vídeos. Para as pequenas coisas que não são minhas, mas que também fazem parte da minha vida. E fiquei ali. A ver. Sem pressa. Sem procurar o vídeo que me tinha levado até ali. A ver tudo o que tinha perdido nos últimos meses.
E de repente percebi que talvez não tivesse perdido tudo. Porque algumas coisas ainda estavam ali. À minha espera. E eu estava finalmente a conseguir vê-las. Talvez seja assim que começamos a voltar para a vida. Não com grandes mudanças. Não com grandes decisões. Mas com um vídeo que finalmente vemos até ao fim. Com uma fotografia que paramos para olhar. Com uma mensagem à qual respondemos. Com uma gargalhada que conseguimos ouvir sem que a nossa cabeça esteja noutro lugar. Com a capacidade de reparar novamente.
Ontem, eu estava à procura de um vídeo da minha sobrinha. E encontrei outra coisa. Encontrei-me a mim um bocadinho. A mim, mais presente. Mais disponível. Mais capaz de olhar para a vida dos outros sem estar tão presa à minha própria dor. E acho que, pela primeira vez em muito tempo, consegui perceber: estou a melhorar. Ainda não estou bem. Ainda há coisas que doem. Ainda há dias difíceis. Mas ontem, no meio de fotografias e vídeos dos meus sobrinhos, percebi que já não estou apenas a tentar sobreviver aos meus dias. Estou a voltar a vivê-los. E talvez isso seja uma das formas mais bonitas de perceber que estamos a começar a curar-nos.

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