Quando a noite já não é garantida e a partilha dói mais do que a separação
Aprender a viver sem ele já me parecia difícil. Mas ontem percebi que o pior ainda nem começou. Não é apenas a ausência dele que vou ter de aprender a suportar. É a ausência dos meus filhos. E isso tira-me o ar.
Quando nasceram em momento algum imaginei que teria de aprender a viver dias inteiros sem os ver. Sobretudo agora, em que ainda nem se conseguem vestir sozinhos!
Nunca me passou pela cabeça que um dia teria de partilhar metade da vida deles. Que haveria noites sem histórias antes de adormecer. Manhãs sem beijos sonolentos. Dias sem sentir o peso do corpo deles adormecido sobre o meu. São tão pequenos… E dói tanto imaginar tudo o que vou perder…
Algumas primeiras vezes. Algumas descobertas. Eu vou lá estar, mas não será sempre.
No outro dia, uma amiga que se separou há uns anos, mas que, entretanto, encontrou o caminho de regresso a casa, contou-me que uma das coisas que mais lhe custou na separação dela foi o dia em que a filha fez dois anos e ela não estava. E não foi a primeira a dar-lhe um beijinho de parabéns! As minhas lágrimas escorreram-me pelo rosto de forma imediata só de imaginar a situação!
Aceitar que o amor da minha vida já não existe e partiu numa viagem sem regresso tem sido um caminho doloroso. Mas aprender a viver numa casa sem os meus filhos… isso é insuportável, e ainda nem aconteceu!
Chamam-lhe partilha. Dizem que mãe e pai têm os mesmos direitos. Que é igual. E acredito que a longo prazo o seja. Mas como se explica isso ao corpo de um bebé que chora pela mãe no escuro? Como se explica isso a uma mãe que sabe que está a poucos metros… e não pode ir? Dizem que eles se adaptam. E eu sei que sim. As crianças adaptam-se a quase tudo. Mas a que custo?
O meu filho mais novo dorme comigo desde que nasceu. Adormece comigo. E ainda adormece a mamar, ou no meu colo. Ainda acorda durante a noite à procura do meu abraço. O mais velho pede-me a mão todas as noites para conseguir fechar os olhos. E eu estive sempre lá. Sempre. Fui a constante na vida deles.
Imaginar os meus filhos a chorarem numa casa onde eu não estou, quando podia estar, é uma dor que ainda nem aconteceu, mas que já me consome.
Não quero que percam o pai. Nunca quis. Tenho promovido todos os momentos entre eles. Sempre. E vou continuar a fazê-lo. Mas quando a noite cai, é comigo que ficam. É o meu colo que procuram. É o meu cheiro que reconhecem no escuro.
Talvez isto seja diferente um dia. Talvez um dia eu consiga respirar fundo e aceitar a partilha sem sentir que estou a perder pedaços de mim. Mas hoje? Hoje eu ainda estou a aprender a sobreviver à ideia de uma casa sem eles. E ninguém me ensinou como se faz isso…

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