Afinal, não era eu que estava perdida

(era só uma versão de mim que nunca existiu)

Ontem dei por mim a planear uma viagem. Com uma amiga que também se está a separar. Com os nossos filhos.

Antes disso escrevi. Falei com amigos ao telefone. Combinei um almoço. Comprei um curso para aprender a fazer colagens com os desenhos do meu filho mais velho e outro para aprender a mexer no WordPress. Custaram-me um euro os dois.

Dei por mim a organizar a casa. A deitar coisas fora. A separar coisas para vender. A experimentar roupa. A olhar-me ao espelho e a reconhecer partes de mim.

Tomei banho. Com calma. Marquei cabeleireiro.

Comecei a fazer planos para o verão. A imaginar. A sonhar. A pensar na minha vida daqui para a frente com outra perspetiva.

E, pela primeira vez em muito tempo, senti alívio.

Estou a começar a reencontrar-me. Aos poucos. E, no meio disso, comecei a perceber uma coisa importante: a pessoa de quem ele se quis separar… não existe. Nunca existiu.

Durante algum tempo acreditei que sim.

Quando me disse que já não se imaginava comigo, falou de alguém que eu quase passei a reconhecer. Uma mulher obcecada pelos filhos. Sem vontade de fazer nada. Sem sonhos. Sem planos. Sem ambição. Presa. Parada. Pequena.

E eu ouvi. E fiquei. E pensei.

“Será que sou mesmo assim?”

Passei noites sem dormir com isso. A rever-me. A desconstruir-me. A tentar perceber onde é que me tinha perdido. Mas a verdade é outra.

Eu não me perdi. Eu adaptei-me. Adaptei-me a uma realidade com dois filhos pequenos. A um bebé que ainda hoje não dorme uma noite seguida. A acordar cinco, seis vezes por noite. A levantar-me sempre. A sobreviver cansada.

Adaptei-me a uma vida onde a minha única rede de apoio era ele. Onde não havia espaço real para sair, para viajar, para fazer diferente – não por falta de vontade, mas por falta de braços onde deixar os meus filhos em segurança.

Adiei coisas. Sim. Mas adiar não é desistir. E cansaço não é falta de ambição. Prioridade não é a ausência de identidade.

Os meus filhos são, sim, a coisa mais importante da minha vida. Mas nunca foram a única.

Eu continuo a ser uma pessoa cheia de vontade. De curiosidade. De planos. De sonhos. Só precisava de espaço. De tempo. De ar.

E talvez seja isso que agora começa a aparecer. Não porque está tudo resolvido. Não está. Mas porque, no meio do caos, há qualquer coisa que se começa a abrir.

Hoje começo a ver-me outra vez. Não como alguém que precisa de ser reconstruída, mas como alguém que nunca deixou de estar inteira. Só estava cansada. Só estava ocupada a cuidar. Só estava a viver uma fase que exigia tudo de mim.

Passei meses a tentar perceber onde é que me tinha perdido. Mas hoje sei: não fui eu que me perdi. Eu só acreditei numa versão minha que nunca chegou a existir.

E talvez o mais irónico seja isto: foi preciso perder uma relação para deixar de duvidar de quem sou!

Leave a Reply

Discover more from REWRITING FAMILY

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading