E, sem sabermos, começámos a amparar-nos uma à outra
Tinham passado poucos dias desde a separação. E eu continuava a cruzar-me com mães de miúdos que tinham andado com o meu mais velho na creche. Temos um grupo no WhatsApp onde falamos e combinamos coisas. Quase sempre relacionadas com eles.
Antes parava sempre que as via. Conversávamos um bocadinho. Mas naqueles dias não conseguia. Evitava.
Às vezes fingia que estava ao telemóvel. Outras dizia que tinha pressa.
Não queria falar. Não queria fingir que estava tudo bem. Não queria ter de dizer em voz alta aquilo que ainda nem eu conseguia aceitar.
Uma delas tinha casado há pouco tempo. Outra estava grávida do terceiro filho. Outra falava em combinar encontros para os miúdos brincarem. Todas me lembravam, de alguma forma, aquilo que eu tinha acabado de perder.
E por isso desviava-me. Acelerava o passo. Dizia um “olá” curto. E desaparecia.
Até que, numa noite, ganhei coragem. Peguei no telemóvel. E escrevi no grupo. Contei da separação. Expliquei o meu silêncio. Pedi, sem pedir, que entendessem.
As respostas chegaram quase de imediato. Disponibilidade. Carinho. Mensagens de apoio. Emocionei-me. Percebi que ia precisar mais delas do que alguma vez pensei.
Mas no meio de tudo isso… houve uma mensagem diferente.
Chegou em privado. E surpreendeu-me. Porque não era só eu. Havia ali outra mãe… a passar pelo mesmo. Separações diferentes. Histórias diferentes. Mas sentimentos iguais. Os mesmos medos. A mesma tristeza. A mesma incerteza. A mesma dor.
Não demorou muito até nos encontrarmos.
Quando nos vimos abraçámo-nos. Um abraço demorado. Denso. Daqueles que dizem mais do que qualquer coisa. E disse muito. Porque não vinha só de alguém que queria ajudar. Vinha de alguém que sabia. Que reconhecia. Que sentia. E que, tal como eu, também estava a tentar perceber como se sobrevive a isto.
Desde então temos falado muito.
Não queria que ela estivesse a passar por isto. Ninguém devia estar.
Mas a verdade é que, no meio deste caos, encontrámo-nos. E, sem darmos conta, começámos a fazer isto juntas. A segurar-nos quando a outra cai. A ouvir quando já não há mais ninguém que perceba. A dizer “eu sei” e saber que, desta vez, é mesmo verdade.
E há qualquer coisa de profundamente raro nisso. Porque nem todas as pessoas ficam. Mas há aquelas que chegam exatamente quando precisamos. E ficam. E eu sei que quero cuidar desse laço. Porque há encontros que não são coincidência. São quase uma forma da vida nos dizer: “não estás sozinha… mesmo agora”.

Leave a Reply