Tirem-me deste filme!

(porque ainda estou à espera que alguém me diga que isto não aconteceu)

Olho para esta página de Instagram e às vezes não acredito que ela seja minha. Leio estas palavras. Leio os textos. Leio os comentários. E parece-me impossível que tenha sido eu a escrevê-los. Devem contar a história de outra pessoa. De uma mulher qualquer que se separou. Que aprendeu a viver entre duas casas. Que chora quando os filhos vão embora. Que fala sobre mediação familiar, guarda partilhada, saudades e reconstrução. Não eu. Nunca eu.

Às vezes leio os meus próprios textos como quem lê um livro emprestado. Como quem espreita a vida de alguém que não conhece. Porque a verdade é esta: ainda há uma parte de mim que continua à espera que me acordem. Que me digam que foi só um pesadelo. Que nada disto aconteceu. Que continuo naquela casa como antes. Naquela vida. Naquela versão de nós. Mas depois cruzo-me com alguém. Alguém que me pergunta como estou. Alguém que fala da separação como um facto consumado. Alguém que menciona os dias em que os miúdos estão com o pai. E a realidade volta a cair em cima de mim. Outra vez.

Não é um pesadelo. É mesmo a minha vida. A página é minha. As palavras são minhas. E esta história sai-me do coração.

Às vezes acho que o cérebro faz coisas estranhas para nos proteger. Porque como é que se aceita uma mudança destas de um dia para o outro? Como é que se olha para a pessoa com quem íamos envelhecer e se aceita que afinal não vamos? Como é que se passa de uma família inteira para um calendário partilhado? Como é que se aprende a viver sem metade dos dias dos nossos filhos?

Talvez não se aprenda de uma vez. Talvez a ficha não caia toda no mesmo dia. Talvez vá caindo aos pedaços. Primeiro quando ele sai de casa. Depois quando os filhos dormem fora. Depois quando assinamos documentos. Depois quando alguém nos pergunta se já estamos melhor. Depois quando encontramos uma fotografia antiga. Depois quando percebemos que já não sabemos qual é o carro da família. Ou qual é a casa da família. Ou até o que significa família agora.

Às vezes sinto que estou sentada numa sala de cinema a assistir a tudo isto. Vejo a personagem principal a chorar. Vejo-a a escrever. Vejo-a a tentar ser forte. Vejo-a a sobreviver. E durante alguns segundos consigo convencer-me de que não sou eu. Até que os meus filhos me chamam. Até que entro no quarto onde eles estão. Até que olho para o lado da cama onde ele ficava e já não o vejo. Até que o silêncio chega. E aí já não há como fugir.

Sou eu. Esta é a minha história. E talvez a parte mais difícil não seja estar a viver tudo isto. Talvez seja aceitar que tudo isto aconteceu mesmo. Que não há ninguém à espera nos bastidores para gritar “corta”. Que não existe uma cena seguinte onde tudo volta ao seu lugar. Que o filme continua. E que eu tenho de continuar com ele. Mesmo sem saber ainda qual vai ser o final.

Mas talvez haja aqui uma coisa bonita. É que, apesar de tudo, continuo a escrever. Continuo a amar. Continuo a ser mãe. Continuo a rir às vezes. Continuo a acreditar que um dia esta história vai doer menos. Por isso, se me quiserem tirar deste filme, façam-no depressa. Porque eu ainda não me habituei a ele. Mas se não der… Então espero pelo menos aprender a viver dentro desta nova versão da história. A minha história!

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