(Há dores que nos fazem regressar ao único lugar onde ainda sabemos ser filhos)
A primeira vez que os meus filhos passaram um dia inteiro com o pai depois da separação foi um sábado. Tínhamos decidido dividir o fim de semana. Ele ficaria com eles no sábado. Eu no domingo. Parecia simples. Na teoria, quase tudo parece simples.
Combinámos encontrar-nos num parque entre as nossas casas. Hoje sei que foi um erro. Devíamos ter feito de outra forma. Devíamos ter combinado que ele os ia buscar a casa e os levava ao parque. Eles saíam felizes. Sem despedidas difíceis. Sem aquele momento em que uma família se divide à frente dos próprios filhos. Mas ainda estávamos a aprender. Ainda estamos.
Quando ele chegou ao parque brincámos um bocadinho todos juntos. Os miúdos correram. Riram. Chutaram bolas. E durante alguns minutos quase parecia que nada tinha mudado.
Depois chegou a hora. Aquela hora. A que eu mais temia. O meu filho mais velho começou a fazer perguntas. Perguntas que os adultos nunca sabem responder bem.
– “O que vais fazer agora?”
– “Porque é que não vens também?”
– “Quando voltas?”
O mais novo não perguntou nada. Chorou. Correu atrás de mim. Gritou “mamã, mamã”. E eu sorri. Acho que foi um dos maiores esforços da minha vida. Sorri para eles os dois. Sorri para lhes dizer sem palavras que estava tudo bem. Sorri para lhes emprestar uma coragem que eu própria não tinha. Despedi-me. Virei costas. E no exato segundo em que deixei de os ver, o sorriso desapareceu. Comecei a chorar descontroladamente. Nem sequer olhei para trás. Nem uma vez. Porque sabia que se os visse a chorar atrás de mim não conseguia continuar a andar. E porque não queria que me vissem assim. Não queria que a última imagem daquele momento fosse a mãe deles partida ao meio.
Cheguei a casa sem saber muito bem como. E quando abri a porta, a minha mãe estava lá. À minha espera. A arrumar qualquer coisa. A fingir normalidade. Como as mães fazem quando sabem que os filhos estão prestes a desabar. Lembro-me de entrar. Lembro-me de a ver. E lembro-me de cair. Literalmente. Atirei-me para o chão e chorei. Chorei como não chorava há muitos anos. Talvez como não chorava desde que era criança.
Fiquei ali. Estendida no chão. Sem força. Sem dignidade. Sem conseguir fingir que estava tudo bem. Depois troquei o chão pelo sofá. E foi aí que aconteceu uma coisa que não esperava. Voltei ao colo da minha mãe. Tenho trinta e poucos anos. Sou mãe de dois filhos. Pago contas. Tomo decisões difíceis. Resolvo problemas. Cuido de pessoas. Mas naquele momento não era nada disso. Era só filha. Deitei a cabeça nas pernas dela. E chorei. Durante horas. Sem explicações. Sem filtros. Sem precisar de ser forte. Apenas chorei.
Antes da separação, quando o pai dos miúdos ficava com eles para eu descansar um bocadinho, eu até gostava. Sabia-me bem. Aproveitava para adiantar coisas. Para respirar. Para estar sozinha. Mas isto era diferente. Há uma diferença enorme entre deixar ir porque queremos e ter de deixar ir porque não temos escolha. Uma diferença gigante entre incentivar a relação deles com o pai e perceber que já não podemos acompanhar metade da vida deles.
E foi isso que me destruiu naquele dia. Não foi o silêncio da casa. Foi a ausência deles dentro dele. A minha mãe percebeu. Nem tentou resolver. Nem me disse que ia passar. Nem me pediu para ser forte. Fez melhor. Ficou. E depois, quando já não aguentava mais estar fechada entre quatro paredes, convenceu-me a sair.
A minha mãe tem o pé raso. Não gosta de andar. Sempre reclamou das caminhadas. Sempre foi a primeira a perguntar quanto falta. Mas naquele dia caminhou comigo. Quilómetros. E quilómetros. E mais quilómetros. Sem uma única queixa. Sem uma única vez dizer que estava cansada. Sem uma única vez sugerir voltarmos para trás. Acompanhou-me até ao fim. E tenho a certeza de que, se fosse preciso, continuava a andar até não existir mais caminho. Só para eu não ter de fazer aquele percurso sozinha.
Há pessoas que nos salvam sem sequer perceber. Nesse dia foi ela. A minha mãe. Que me segurou quando eu não conseguia ficar de pé. Que me emprestou colo quando eu já não sabia onde pousar a dor. Que caminhou ao meu lado quando eu achava que não conseguia dar mais um passo. E talvez seja isso que as mães fazem a vida inteira. Mesmo quando os filhos crescem. Mesmo quando os filhos já têm filhos. Mesmo quando já são adultos. Continuam lá. À espera. Com o colo pronto. Para o caso de um dia precisarmos de voltar.

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