Há momentos em que percebo que a parte mais difícil da separação não é estar sozinha

É sentir-me sozinha mesmo quando ele ainda está ali

Ainda estou em casa com o meu filho mais novo. Está doente. Dias mais lentos. Mais colo. Mais mimo. Mais desenhos animados ligados ao fundo enquanto tento trabalhar entre interrupções pequeninas, brinquedos espalhados e chamadas constantes pela “mamã”.

Ontem ao final da tarde precisei de sair com ele para resolver uma coisa do condomínio. Uma daquelas coisas práticas da vida adulta que antes eram resolvidas pelo pai. Agora fui eu. E quando voltámos para casa ele não quis entrar. Queria passear mais um bocadinho comigo. Então fomos até ao parque que fica entre a nossa casa e a escola do irmão.

Como já estava na hora da saída liguei ao pai que o ia buscar para saber onde estavam. A caminho. Perguntei se queriam ir até ao parque ter connosco. Foram.

E houve ali um momento que me deixou um peso estranho no peito.

Assim que o meu filho mais velho chegou correu para mim. Queria colo. Ao mesmo tempo o mais novo, que tinha ido ao encontro do pai, voltou logo para mim também. E de repente tinha os dois agarrados às minhas pernas. Os dois a chorar. Os dois a puxarem-me. Os dois a empurrarem-se um ao outro porque queriam ser o que ficava no colo da mãe.

E eu fiquei ali. No meio dos dois. Sozinha.

Acho que foi isso que mais me doeu.

Porque antes da separação nunca me senti sozinha nestes momentos. Cansada às vezes, claro. Sobrecarregada também. Mas não sozinha.

Antes havia alguém ao meu lado. Alguém que pegava num deles sem ser preciso pedir. Que percebia o caos antes de ele explodir. Que ajudava. Que fazia equipa comigo. Que olhava para mim e via imediatamente que eu precisava de ajuda.

Ontem não.

Ontem ele sentou-se longe.

E talvez quem olhasse de fora nem achasse estranho. Afinal ele estava ali. Presente fisicamente. Mas emocionalmente parecia tão distante daquela confusão toda. Como se aqueles dois meninos desesperados por colo fossem apenas responsabilidade minha. Como se a maternidade tivesse continuado a ser partilhada… mas o peso emocional dela tivesse deixado de ser.

E talvez seja esta uma das partes mais solitárias da coparentalidade depois da separação.

Não é só a ausência física nos dias em que estamos sozinhos com os filhos. É a ausência emocional mesmo quando o outro pai ainda está ao nosso lado.

É perceber que continuamos a carregar o choro, a culpa, os conflitos, as necessidades emocionais dos filhos… quase sempre sozinhas. Mesmo quando teoricamente ainda somos “uma equipa parental”.

No caminho para casa foi igual. O mais velho queria colo também. O mais novo, doente, só acalmava agarrado a mim. Os dois choravam. Os dois me puxavam. E eu sentia-me literalmente dividida ao meio.

Pedi ajuda. Mas há pedidos que doem precisamente porque nunca deviam precisar de ser feitos.

Entretanto ele tentou pegar no mais novo para eu dar colo ao irmão. Não resultou. O bebé só queria a mãe. E eu percebi que naquele momento precisava mais de mim. Expliquei isso ao mais velho. Disse-lhe que quando ele teve varicela também fui eu quem ficou sempre ao lado dele. Que agora era a vez do mano precisar mais de colo. Mas que gostava dos dois exatamente da mesma maneira.

Mesmo assim senti um aperto enorme quando o ouvi pedir colo ao pai… e não o ter. Porque aparentemente já tem idade para fazer o caminho até casa a pé.

E depois aconteceu a parte que verdadeiramente me partiu.

Passámos pelo carro.

O carro que foi nosso durante os últimos meses. O carro onde cantámos músicas infantis repetidas até à exaustão. Onde existiram viagens, conversas, discussões, migalhas no chão e vidas inteiras lá dentro. Um presente de casamento antecipado. E que agora é “o carro do pai”.

Já lhe tínhamos explicado isso antes. E ele normalmente já dizia assim também.

Mas ontem olhou para mim e perguntou:

“Mãe… este é o nosso carro, não é?”

E eu soube imediatamente que ele sabia a resposta. E que aquilo não era sobre o carro. Era sobre nós. Sobre perceber se ainda existem coisas que continuam a ser “nossas”. Sobre tentar encontrar pequenas provas de que a família dele ainda existe algures. Mesmo no meio da separação.

Naquele instante não consegui dizer-lhe que não. Disse apenas:

“Sim, amor. É nosso.”

E ele sorriu. Um sorriso tranquilo. Quase aliviado. E seguiu caminho feliz. Como se tivesse acabado de confirmar que ainda restam pedaços intactos do mundo dele.

E talvez seja isso que os nossos filhos fazem tantas vezes depois de uma separação: procuram pequenas coisas onde ainda possam sentir que pertencemos todos à mesma história. Mesmo quando os adultos já sabem que ela mudou para sempre.

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