A culpa senta-se sempre à mesa

(há sentimentos que mudam todos os dias. Este não)

A separação é uma montanha-russa emocional. Há dias em que sentimos saudades. Outros em que sentimos alívio. Há dias em que ainda existe amor. Outros em que existe raiva. Há dias em que acreditamos no futuro. Outros em que temos medo dele. Há dias em que temos certezas. E outros em que duvidamos de tudo.

Às vezes estes sentimentos duram semanas. Outras vezes mudam de lugar no espaço de uma tarde. Mas há um que, pelo menos na minha experiência até agora, nunca foi embora. A culpa. A culpa está sempre lá. Discreta nuns dias. Ensurdecedora noutros. Mas sempre presente.

No fundo sei que não fui eu quem decidiu acabar a minha relação. Não foi uma escolha minha. Não foi um caminho que desejei. E ainda assim sinto culpa. Porque talvez tenha falhado em coisas que não vi. Porque talvez tenha deixado passar sinais que devia ter percebido. Porque talvez existam erros meus que ajudaram a construir o lugar onde acabámos. E mesmo sabendo que uma separação raramente acontece por causa de uma pessoa só, a culpa encontra sempre maneira de entrar.

Mas a culpa mais difícil não é essa. A culpa mais difícil são os filhos. É olhar para eles e pensar: “Desculpem”. Desculpem por isto não ter corrido como eu imaginei. Desculpem por crescerem entre duas casas. Desculpem por terem duas rotinas. Duas camas. Duas versões da mesma infância. Desculpem por vos obrigar a transportar mochilas, brinquedos, roupas e emoções de um lado para o outro. Como se a vida pudesse caber toda numa mala.

Há dias em que dou por mim a olhar para eles e a pensar que nunca vão ter as memórias que eu tive. Nunca vão lembrar-se de nós os quatro à mesa. Das férias em família. Dos Natais como eu os vivi. Nem sequer vão recordar o tempo em que os dois pais viviam na mesma casa. E isso dói. Dói muito. Porque durante toda a minha vida imaginei uma família diferente para os meus filhos. Não melhor. Mas diferente. Parecida com aquela onde cresci. E às vezes sinto culpa por não lhes conseguir dar isso.

Depois há a culpa das ausências. A culpa dos dias em que estão com o pai e eu queria que estivessem comigo. Dos momentos que perco. Das histórias que não ouço. Das gargalhadas que acontecem sem mim. Dos beijinhos de boa noite que não dou. Dos joelhos esfolados que não sou eu quem cura. Dos dias que nunca mais voltam.

E depois, estranhamente, aparece outra culpa. A culpa dos dias em que estou bem. Dos dias em que consigo rir. Descansar. Respirar. Dos dias em que consigo aproveitar algumas horas sem eles. Como se uma mãe tivesse obrigação de sofrer permanentemente para provar o amor que sente. Como se estar bem fosse uma traição. Como se a felicidade precisasse de autorização.

Também sinto culpa quando separo os irmãos. Quando um dorme com o pai e o outro fica comigo. Durante a maior parte da vida deles dividiram uma casa. E agora sou eu que os vejo seguir caminhos diferentes durante alguns dias. Porque um ainda é bebé. Dorme comigo desde que nasceu. Mama. Está na fase em que quer a mãe para tudo. E eu que não consigo lidar bem com a ausência do irmão, imaginem com esta.

Sei que estão bem. Sei que se adoram. Sei que voltam a encontrar-se rapidamente. Mas há uma parte de mim que continua a sentir que não era suposto ser assim.

E ainda há outra culpa. Mais silenciosa. Mais escondida… A culpa de não conseguir ser tudo para todos ao mesmo tempo. De não conseguir dar ao mais velho exatamente o mesmo que dou ao mais novo. De não conseguir estar sempre disponível. Sempre paciente. Sempre presente. Sempre inteira. Porque a verdade é que agora sou só uma. E às vezes sinto que passo os dias a correr atrás de uma versão impossível de mim própria. A mãe perfeita. A mãe que nunca falha. A mãe que consegue compensar tudo aquilo que a separação levou. Mas essa mãe não existe. E talvez seja isso que eu esteja lentamente a aprender.

Talvez a culpa faça parte do caminho porque nasce do amor. Porque só sentimos culpa por aquilo que nos importa profundamente. Mas também talvez exista um momento em que precisamos de lhe dizer: “Já chega”. Porque os meus filhos não precisam de uma mãe perfeita. Precisam de uma mãe presente. Precisam de uma mãe que os ame. Precisam de uma mãe que continue a aparecer todos os dias. Mesmo quando está cansada. Mesmo quando está triste. Mesmo quando carrega culpas que ninguém vê.

E talvez um dia eu consiga acreditar verdadeiramente nisto: que a culpa pode acompanhar-nos. Mas não precisa de nos conduzir. Porque já há dor suficiente numa separação. Não precisamos de passar a vida inteira a pedir desculpa por ter sobrevivido a ela.

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