“Mãe… porque já não usas o colar que eu te dei?”

(e percebi que o meu filho ainda se lembra de tudo)

No último fim de semana antes de ir de férias o meu pai ofereceu-me um colar. Não era uma data especial. Não havia nenhum aniversário. Não era Natal. E não havia um motivo aparente. Foi só um gesto. Daqueles pequenos. Mas cheios de amor. Daqueles que dizem “estou aqui” sem precisarem de o dizer.

Cheguei a casa, coloquei-o ao pescoço… e ainda não o tinha tirado. No dia seguinte fiquei em casa com o meu filho mais velho. Estava doente. Era um daqueles dias que, ironicamente, acabam por nos dar aquilo de que mais precisamos.

Trabalhei um bocadinho. Arrumei a casa. Limpei. Mas, acima de tudo… estive com ele. Jogámos futebol na sala. Fizemos puzzles. Montámos Legos. Pintámos. Corremos. Saltámos. Vimos desenhos animados. Lemos histórias. Abraçámo-nos muitas vezes. E, sem dar por isso, passei o dia inteiro a recuperar um tempo que sinto que a vida me roubou demasiado cedo.

Uma das coisas que mais me custou nesta separação… foi a altura em que aconteceu. Quando o pai dos meus filhos me falou pela primeira vez em separar-se… eu tinha um bebé com menos de um ano ao colo. Estava exausta. Havia noites sem dormir. Um bebé que precisava de mim para tudo. E um filho mais velho a tentar perceber porque é que, de repente, já não tinha a mãe só para ele. Passavam o tempo a disputar o mesmo colo. Várias vezes ao dia. E, inevitavelmente… nem sempre havia colo suficiente para os dois.

Passei meses com culpa. Porque sentia que tinha deixado de ter tempo só para o mais velho. Depois veio a separação. E esse tempo tornou-se ainda mais raro. Talvez por isso dias como o do outro dia me saibam tanto a casa.

E isto foi a meio da tarde depois. Estávamos os dois no sofá. Tinha acabado de lhe contar uma história. Olhou para o meu pescoço e perguntou:

– “Mãe… esse colar é novo?”

Sorri. Disse-lhe que sim. Que tinha sido o avô quem mo ofereceu. Ficou a olhar para ele durante alguns segundos. Depois respondeu:

– “Mas o que eu te dei é mais bonito”

Sorri outra vez. Sem perceber do que estava a falar. Perguntei-lhe:

– “Qual colar, filho?”

Olhou para mim como se a resposta fosse óbvia.

– “O que eu te dei com o papá… quando ele te pediu para casar”

E, de repente… voltei alguns meses atrás. Ao dia em que o pai dele colocou o anel num fio. Sabia que eu não gostava de usar anéis. Prepararam a surpresa juntos. Foi o meu filho quem entrou a correr. Foi ele quem me colocou o colar nas mãos. Enquanto, atrás dele… o pai se ajoelhava ao som de uma música que escreveu e cantou para a ocasião. Nunca mais pensei naquele momento daquela forma. Até ao dia em que o meu filho me voltou com aquela conversa.

Respirei fundo. Disse-lhe que me lembrava muito bem. E expliquei-lhe que esse colar era muito bonito. Mas que já não o podia usar. Nem me deixou acabar.

– “Podes sim”

Sorri. Disse-lhe baixinho:

– “Não, meu amor… eu e o pai já não vamos casar”

Olhou para mim. Muito sério. Como se eu estivesse simplesmente enganada.

–  “Mas podes casar. Vai buscar. Vai pôr”

Disse-lhe outra vez que não podia. Que o colar estava guardado. Que nunca o ia deitar fora. Mas que já não podia usá-lo. Atirou-se para cima do sofá. E começou a chorar. Queria que eu tirasse o colar que o avô me tinha dado. E colocasse aquele. O dele. O nosso. O da família que ele ainda acreditava que podia voltar. E foi nessa altura que tocaram à campainha. Era um estafeta. Nunca um estafeta me salvou tanto. Porque eu já não sabia o que responder.

Há perguntas para as quais não existem palavras suficientemente bonitas. Nem suficientemente verdadeiras. Depois de o estafeta ir embora… a conversa já era outra. Mas eu fiquei ali. Presa naquele momento. A pensar numa coisa. O meu filho ainda se lembra de tudo. Lembra-se do dia em que o pai me pediu em casamento. Lembra-se do colar. Lembra-se da surpresa. Lembra-se da família que éramos. Um dia… provavelmente vai deixar de se lembrar. As memórias vão ficando desfocadas. Os detalhes desaparecem. E não sei, sinceramente, o que me parte mais o coração. Se saber que um dia o meu filho vai esquecer muitos dos momentos mais bonitos que vivemos juntos… Ou perceber que, enquanto ainda se lembra deles… continua todos os dias a desejar que eles voltem. Porque talvez seja isso que mais custa na infância. As crianças não fazem luto apenas das pessoas. Fazem luto das histórias que acreditavam que iam durar para sempre.

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