(e talvez seja esse o luto de que quase ninguém fala)
Quando era miúda, havia uma coisa que eu adorava. Brincar aos pais e aos filhos. Juntava-me às minhas amigas e passávamos horas a imaginar a nossa vida adulta. Escolhíamos nomes para os bebés de cada uma. Discutíamos quantos íamos ter. Quem ia ser o pai. Onde íamos viver. Com que idade íamos casar. Enfim. Coisas de crianças, que na sua inocência, começavam a desenhar um futuro que lhes parecia promissor. E feliz.
Sempre me imaginei com muitos filhos. Um monte deles. Uma casa cheia. Barulho. Brinquedos espalhados. Crianças a correr de um lado para o outro. Irmãos a crescer juntos. A discutir por coisas pequenas. A defenderem-se uns aos outros quando fosse preciso. A construírem memórias que um dia levariam para os próprios filhos.
Esse sonho nunca desapareceu. Mesmo quando cresci e comecei a perceber que talvez não fosse assim tão fácil torná-lo realidade. Isto porque eu tinha pavor de médicos. Consultas. Exames. Vacinas. Tirar sangue. Hospitais. Centros de saúde. Coisas que para outras pessoas eram banais conseguiam deixar-me ansiosa durante dias. Só o facto de saber que tinha de ir a uma consulta era suficiente para me tirar o sono durante alguns dias. E talvez por isso tenha demorado tanto tempo a acreditar que aquele sonho podia mesmo ser meu.
O pai dos meus filhos sabia disso. E soube esperar. Soube ter paciência. Aceitou uma parte de mim que reconheço que nem sempre deve ter sido fácil de acompanhar. E, durante muitos anos, mostrou-me que eu não estava sozinha naquele desejo. Que era possível.
Estivemos juntos cerca de dez anos antes de começarmos realmente a pensar em ter filhos. Para ele, provavelmente, já podiam ter chegado muito antes. Mas eu precisava daquele tempo. Precisava de sentir que conseguia. Que não estava sozinha. Que o medo não precisava de ser maior do que a vontade.
E depois aconteceu. Tive o meu primeiro filho. E com ele nasceu uma vontade que eu não sabia que podia ser ainda maior. Ter outro. Depois nasceu o segundo. E nasceu outra vontade. Ter um terceiro. Falávamos disso. Imaginávamos como seria. Os três juntos. Na mesma casa. A crescerem lado a lado. A terem uma infância partilhada. A criarem aquela espécie de cumplicidade que só os irmãos conhecem.
Poucas semanas antes de o pai dos meus filhos falar comigo sobre a separação, chegou mesmo a falar-me em começarmos a tentar o terceiro. E eu disse que não. Não porque não quisesse. Queria muito. Mas estava cansada. Tinha acabado de ter um bebé. Sabia o que significava voltar a passar por uma gravidez, um parto, um pós-parto, noites sem dormir. E naquele momento não conseguia imaginar voltar a fazer tudo outra vez.
Mas a verdade é que queria. Um dia. Mais um bebé. Mais um filho. Os três juntos. E depois a separação aconteceu. E, com ela, morreu também esse futuro. É estranho fazer o luto de alguém que nunca existiu. De uma criança que nunca nasceu. De um quarto que nunca preparámos. De um nome que nunca escolhemos. De três irmãos que nunca chegaram a ser três. De uma fotografia que nunca tirámos. De uma vida que existia apenas na nossa imaginação… mas que, para mim, era completamente real.
Hoje não me imagino a ter outro filho. Não consigo imaginar-me a voltar a passar por uma gravidez e por tudo o que vem depois. Não me imagino a arriscar viver outra vez uma separação com filhos. E, muito menos, a imaginar três casas, mais pessoas, diferentes famílias, diferentes rotinas, diferentes pais.
E depois há perguntas que me assustam ainda mais. Como é que se vive com um filho a tempo inteiro e outro apenas metade do tempo? Como se explica a uma criança que o irmão pode estar sempre em casa… mas ela não? Como se explica que uns irmãos podem acordar juntos todos os dias e outros só alguns? Só de imaginar já me dói.
Mas a vida pode, um dia, levar-nos para outro lugar. Podemos conhecer alguém que também tenha filhos. Alguém que venha de uma história parecida. Alguém que saiba o que é ter duas casas, calendários, mochilas e saudades. E talvez eu conseguisse amar os filhos de outra pessoa. Acredito que sim. Acho até que conseguiria gostar deles genuinamente. Cuidar deles. Criar espaço para eles na minha vida. Mas recentemente uma amiga contou-me uma coisa que ficou comigo. Ela cresceu com os pais separados. E disse-me que uma das coisas que mais lhe custou, a ela e ao irmão, foi quando o pai começou uma relação com uma mulher que tinha um filho. O pai começou a levar aquele menino à escola. A passar tempo com ele. A estar presente para ele. E eles viam. Viam o pai fazer por uma criança que não era sua coisas que, por vezes, não conseguia fazer por eles. E isso doeu. Mexeu com a relação que tinham com o pai durante algum tempo. Fiquei a pensar nisso durante dias. Porque eu não quero que os meus filhos sintam que alguma outra criança está a receber o tempo que lhes foi tirado. Mas também não quero que nenhuma criança sinta que é menos amada por causa da história dos adultos.
E depois há o outro lado. E se for alguém sem filhos? Como é que explicamos a alguém que talvez nunca seja a nossa prioridade em determinados momentos? Que há chamadas que vamos atender a meio de um jantar porque um filho está doente? Que há fins de semana que deixam de ser nossos? Que há férias que dependem de calendários? Que há dias em que o amor por eles vai ocupar quase todo o espaço disponível? Talvez seja possível. Não sei. Hoje não sei quase nada sobre esse futuro.
Mas há outra coisa que me tem custado muito. As pessoas à minha volta continuam a avançar. E eu fico genuinamente feliz por elas. Tenho amigas grávidas. Algumas à espera do segundo. Outras a pensar no terceiro. Há quem esteja a comprar uma casa maior. A preparar um quarto de bebé. A escolher nomes. A fazer planos. E eu olho para tudo isso e sorrio. Porque estou feliz por elas. Mas às vezes, depois de sorrir… fico triste. Não porque lhes falte felicidade. Mas porque aquela felicidade me lembra uma coisa que eu também queria.
É estranho conseguir estar genuinamente feliz por alguém… e, ao mesmo tempo, sentir uma pequena dor dentro de nós. Não é inveja. É luto. É olhar para alguém a dar um passo em frente… e perceber que era exatamente nessa direção que nós também queríamos caminhar. E talvez seja isso que mais me custa. Não sentir que a minha vida ficou parada. Mas sentir que ficou parada num lugar onde eu não queria ficar.
Enquanto os outros compram casas maiores, eu penso nas duas casas que os meus filhos agora têm. Enquanto outros escolhem nomes para bebés, eu penso no terceiro filho que nunca tivemos. Enquanto outras famílias crescem, eu tento aprender a viver com a família que diminuiu. E talvez um dia isto deixe de doer. Talvez um dia eu olhe para a minha vida e já não pense naquilo que faltou. Talvez apareça outra pessoa. Talvez não apareça. Talvez tenha mais filhos. Talvez nunca tenha. Talvez os meus filhos sejam dois para sempre. Não sei.
Mas há uma coisa que começo a perceber. Nem todos os lutos são por aquilo que perdemos. Alguns são por aquilo que nunca chegámos a ter. E esses são particularmente difíceis de explicar. Porque ninguém morreu. Não há funeral. Não há fotografias para guardar. Não há uma última memória. Há apenas uma versão da nossa vida que deixou de existir antes de chegar a acontecer. E talvez seja isso que eu esteja a aprender a aceitar. Que algumas das famílias que imaginámos ficam para sempre dentro de nós. Mesmo aquelas que nunca chegaram a existir.

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