Hoje não faltava ninguém.

(mas demorei o dia inteiro a perceber isso)

Estou de férias com a minha família. Chegámos a um restaurante depois de um dia inteiro juntos. Já estamos sentados. Os meus filhos estão ao meu lado. O meu irmão, a minha cunhada e o meu sobrinho estão à nossa frente. Os meus pais do outro lado da mesa. A comida começa a chegar. Eles provam. Sorriem. Elogiam os pratos. Falam do dia incrível que tivemos. Pelo meio começam a planear o dia seguinte. Querem ir pescar. Discutem o que precisam de levar. Falam dos horários. Do que falta comprar. Voltam a falar da comida. Do peixe que sabe a laranja. Das raspas por cima. Do molho. De tudo e de nada. Uma família normal a jantar depois de um dia feliz.

E eu queria estar ali. Queria genuinamente estar interessada no peixe à minha frente. Queria ouvir a conversa sobre a pesca. Queria saborear o jantar. Mas não estava. Porque, entretanto, chegou um casal com dois filhos. Um pai. Uma mãe. Dois miúdos mais ou menos da idade dos meus. Sentaram-se mesmo ao nosso lado. E eu passei a reparar em tudo.

No pai a servir os filhos. Na mãe a limpar-lhes a boca. Nos quatro a falar ao mesmo tempo. Nos miúdos a interromperem os pais. Nos pais a mandarem-nos comer mais um bocadinho. Coisas absolutamente banais. Coisas que, provavelmente, aquela família nem vai guardar na memória.

Mas eu guardei. Porque fiquei a pensar que os meus filhos já não vão ter muitos daqueles momentos. Não daquela forma. Agora há as férias da mãe. E as férias do pai. Os jantares com a mãe. Os jantares com o pai. Os dias de praia com uns. Os dias de praia com outros. E, mesmo quando conseguimos fugir às regras e fazer alguma coisa juntos, já não é exatamente a mesma coisa. Porque existe sempre uma casa onde alguém não está. Um lugar vazio à mesa. Uma pessoa que poderia estar ali… mas já não está.

Continuamos a ser uma família. Eu sei que sim. Mas somos uma família diferente. Há duas casas. Duas rotinas. Duas vidas. E, algures no meio delas, estão os meus filhos. A unir duas famílias que já não vivem como uma só.

O meu sobrinho começa a ficar cansado. A minha cunhada pega no telemóvel e mostra-lhe um vídeo do Panda. Já estamos nos cafés. Os meus filhos saltam para o meu colo. Um em cada perna. Juntam as cabeças para conseguirem ver o telemóvel da tia. Ficam os três ali, apertadinhos, a rir. E eu olho para eles. Dou um beijo a cada um. Depois outro. E outro. Enterro a cara nos cabelos deles durante alguns segundos. E aproveito para limpar uma lágrima que já estava ali há demasiado tempo.

Na verdade, aquela lágrima tinha começado muito antes. Começou ainda antes de entrarmos no restaurante. Quando o meu irmão e a minha cunhada me pediram para lhes tirar uma fotografia. Igual à que lhes tinha tirado dois anos antes, naquele mesmo lugar. Primeiro com o filho. Depois sem ele. E eu lembrei-me. Há dois ou três anos… éramos nós. Eu e ele. Primeiro com o nosso filho mais velho. Depois sem ele. Uma fotografia aparentemente banal. Mas que, de repente, passou a ter dentro dela uma vida inteira que já não existe.

Saímos do restaurante e fomos em direção ao centro da vila. Há sempre alguém a cantar por ali. Música ao vivo. Pessoas sentadas nas esplanadas. Crianças a correr. E eu continuava a sorrir por fora enquanto tentava segurar tudo o que estava por dentro. Até que passámos por uma pequena mesa com colares à venda. Pedi ao meu filho mais velho que escolhesse um para mim. Escolheu. Disse-lhe que agora ia andar sempre com aquele colar. O colar que ele tinha escolhido para mim. Ficou feliz. Abraçou-me. E, naquele abraço, lembrei-me de outra coisa que ele me tinha pedido há pouco tempo. Se eu podia usar o colar que me tinha dado com o pai. O colar com o anel de noivado. Aquele que ele próprio me entregou no dia em que o pai me pediu em casamento.

Talvez este novo colar não apague essa memória. Nem precisa. Mas talvez sirva para começar outra.

O mais novo pediu-me colo. Pegou-me na mão. Começou a dançar. E eu fui com os dois para junto do homem que estava a cantar. Dancei com eles. Cantei com eles. Ri-me com eles. E, naquele instante, aconteceu uma coisa que eu já nem sabia que precisava tanto de sentir. O meu coração encheu-se outra vez. Não pensei em quem faltava. Em quem há dois ou três anos fazia aquele caminho de mão dada comigo. Não pensei no casal ao nosso lado. Não pensei nas duas casas. Não pensei no passado. Não pensei no que os meus filhos perderam.

Olhei para os dois e, por alguns minutos, não faltava ninguém. Estávamos inteiros. E talvez a felicidade depois de uma separação seja isto. Não deixar de sentir falta. Mas descobrir que existem momentos em que a falta deixa de ocupar todo o espaço. E ontem foi um desses momentos. Foi um dia difícil. Muito. Mas também foi um dia feliz. E talvez as duas coisas possam ser verdade ao mesmo tempo.

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