O meu tio morreu.

(há dores que se tornam ainda maiores quando estamos longe de casa)

Quem me tem acompanhado ao longo dos últimos meses já deve ter percebido que decidi continuar a viver no mesmo sítio onde vivia antes da separação. Longe da minha família. Sem rede de apoio. E a depender financeiramente do meu ex e dos meus pais.

Tem sido bastante complicado. E tenho feito um esforço todos os dias para aceitar esta realidade. Porque, por muito que me custe estar aqui, acho que me sufoca ainda mais a ideia de que poderia sair daqui. Poderia mudar-me para perto da minha família. Poderia ter ajuda. Poderia voltar a sentir-me rodeada das pessoas que me amam. Mas os meus filhos ficariam a 300 quilómetros do pai. E acho que não ia aguentar a culpa que sentiria sempre que quisessem o pai e o pai estivesse longe. Por isso fico.

Fico porque acredito que os meus filhos precisam de ter o pai por perto. Fico porque não quero que a minha decisão de sair daqui tenha consequências na relação deles com o pai. Fico porque, mesmo quando a minha vida se torna tão difícil de gerir, continuo a tentar fazer aquilo que acredito ser melhor para eles.

Mas a verdade é que ficar também tem consequências. E tenho-as aprendido e descoberto ao longo dos últimos meses. E garanto-vos. É muito mau. É um sentimento de solidão constante. Uma impotência enorme. É querer estar rodeada das pessoas que te amam e gostam de ti e não poderes, porque estás longe. É faltar ao aniversário de alguém de quem gostas. É não estar presente em datas importantes. É saber que, se fores, não consegues voltar no mesmo dia. E que ir e ficar deixou de ser uma opção, porque há dias que tens de partilhar com o pai dos teus filhos.

É perceber que, de repente, há coisas que te são cobradas como se não tivesses uma vida inteira para gerir. Como se fosse simples. Como se bastasse querer. Como se as relações, depois de uma separação, continuassem a funcionar exatamente da mesma maneira.

E há uma parte disto que me custa particularmente. É que eu vivo perto da família do meu ex. E são família para mim. Vão ser sempre, de alguma forma. Antes da separação, sentia-me aqui. Rodeada de família. De amigos. De pessoas com quem partilhava refeições, aniversários, fins de semana, momentos que nem sequer pensava que um dia deixariam de fazer parte da minha vida.

Mas a verdade é que grande parte dessa família e desses amigos apareceu com ele. São do lado dele. E eu sei que é normal que, com uma separação, as coisas mudem. Sei que não posso esperar que as pessoas escolham um lado. Sei que a vida continua. Que as relações se reorganizam. Que há convites que deixam de fazer sentido. Que há momentos em que é natural que seja ele a estar presente.

Recebi algumas mensagens que me tocaram muito. E sei que, quando nos encontramos, se nos encontrarmos, há pessoas com quem a minha relação não mudou. Há carinho. Há história. Há coisas que não desaparecem só porque uma relação acabou.

Mas a verdade é que mudou. E é normal que assim seja. Há almoços e jantares para onde já não sou convidada. Há aniversários de que já não faço parte. Há momentos em família em que ele está e eu não. Há tantas coisas que antes eram rotina e que agora tenho de aprender a esquecer. Porque continuam a existir. Sem mim. E, às vezes, é difícil não sentir que tudo continua normal. Que as pessoas continuam a viver as suas vidas. Que os encontros continuam a acontecer. Que as fotografias continuam a ser tiradas. Que as gargalhadas continuam a encher as mesmas casas. Como se eu nunca tivesse feito parte. Como se fosse descartável. E isso dói. Não porque ache que alguém me deve alguma coisa. Não porque queira que deixem de o convidar. Não porque queira ocupar um lugar que já não é meu. Mas porque, durante muito tempo, aquele também foi o meu lugar.

E há uma diferença enorme entre saber que uma coisa acabou e sentir que, para os outros, a vida continuou quase sem alterações. Depois, espera-se que eu procure esses mesmos colos. Essa mesma companhia. Que continue a encontrar as mesmas pessoas, a procurar o mesmo conforto, o mesmo apoio, a sentir-me rodeada como antes.

Mas eu não consigo. Não consigo aparecer nos mesmos sítios como se nada tivesse mudado. Não consigo estar à mesa com determinadas pessoas e não sentir a falta da vida que existia antes. Não consigo procurar conforto em lugares que, de alguma forma, também me lembram aquilo que perdi. E, por isso, acabo por me isolar. A sentir que se precisar de alguma coisa é só com aquilo que posso contar. Quando ao contrário eu já não o posso fazer.

E então procuro encontrar novas formas de me sentir acompanhada aqui. Tenho estado mais com quem ficou. Tenho falado e saído com mais pessoas que, infelizmente, estão a passar pelo mesmo que eu. Porque há uma coisa que só quem passa por uma separação percebe verdadeiramente. Ficar implica perder muita coisa. Incluindo noites. Sono. Tranquilidade. A sensação de que, por muito que a vida corra mal, há sempre alguém por perto a quem podemos recorrer.

Se vocês soubessem a quantidade de vezes em que acordo durante a noite. Para ir ao LinkedIn procurar ofertas de trabalho remoto. Com flexibilidade de horários. Para tentar encontrar alguma coisa que me permita conciliar um segundo trabalho com aquele que já tenho. Para fazer contas à vida. Para ver casas perto da minha família e imaginar uma vida que provavelmente nunca vou ter. Ali. Perto deles.

Faço contas constantemente. Contas que nunca dão certo. Sempre a tentar perceber de onde posso tirar para aquilo de que preciso. Porque a verdade é que, neste momento, as contas pesam mais do que aquilo que recebo. E, quando recebo, todo o meu dinheiro já tem destino. Resta-me gerir o dinheiro que me dão. O meu ex e os meus pais.

É pensar em como raio vou conseguir sobreviver aqui, sem dinheiro que me permita ser financeiramente independente e sem uma rede de apoio. É pensar em mil e uma atividades que poderia fazer para me distrair. Para ocupar o tempo, sobretudo nos dias em que não estou com os miúdos. Para tentar não pensar tanto. E saber que, no final, provavelmente não vou fazer quase nada do que tinha planeado. É pensar na consulta do dentista a que faltei porque aquele dinheiro vai ajudar a pagar a festa de aniversário do meu filho. É reduzir nas consultas de psicologia porque há a natação, o futebol e as escolas para pagar. É olhar para as minhas necessidades e perceber que há sempre alguma coisa mais urgente. Alguma coisa que vem primeiro. Alguma coisa que não pode esperar.

É tudo isto. E tanto mais. Mas, ao mesmo tempo, é saber que o pai dos meus filhos está perto. É saber que, quando as saudades apertam, não tarda e poderão estar com ele. É vê-los sorrir quando ele chega. É saber que, embora eu não esteja com ele, eles estão. E estão bem. E, por muito que me custe estar aqui, isso dá-me algum conforto. Porque posso estar a abdicar de tanta coisa minha, mas sei que os meus filhos não estão a abdicar do pai.

Só que há dores para as quais não estamos preparados. E a que me assolou ontem foi uma delas. Os meus filhos foram passar a tarde com o pai. Com amigos e família, para celebrar o primeiro aniversário de um amigo da família que, com tudo isto, ainda não tive oportunidade de conhecer. Eu já estava triste por não poder lá estar. Porque eram pessoas de quem gosto. Pessoas com quem partilhei momentos. Pessoas com quem teria gostado de celebrar aquele dia feliz. Mas são amigos e família dele. Do lado dele. E faz sentido que o chamem a ele. Que não me chamem a mim.

Ainda assim, nada me doía tanto como aquilo que veio a seguir. Aproveitei a tarde para limpar a casa. Estava a tentar arranjar o aspirador, que tinha avariado, enquanto pensava no que poderia vender para comprar um novo, quando o meu telefone tocou. Era a minha mãe. A conversa começou como tantas outras. Normal. Até que, de repente, ouvi: “O tio faleceu ontem durante a noite. O funeral vai ser amanhã”.

O meu tio morreu. E o meu coração encolheu. As lágrimas começaram a escorrer. E eu só queria um abraço. Queria a minha mãe. Queria os meus avós. Queria a minha família. Queria estar perto de alguém que também o conhecesse. De alguém que também estivesse a sentir aquela dor. Mas a minha família estava longe. Os meus amigos daqui estavam fora.E eu não tinha ninguém.

Desliguei a chamada. Respirei fundo. Chorei. Andei de um lado para o outro da casa, sem saber muito bem o que fazer comigo. Comecei a ver horários de comboios. A tentar perceber se conseguia ir ao funeral. Se conseguia chegar a tempo. Se conseguia abraçar a minha mãe. Abraçar os meus avós. Chorar com alguém que conhecia o meu tio. Mas os meus filhos estavam quase a chegar. Já era tarde. Não dava para ir e voltar no mesmo dia com os dois. Não conseguia ir sozinha. E havia toda uma logística que, quando somos apenas uma pessoa a gerir duas crianças pequenas, não é assim tão simples.

E eu parei. Parei porque não sabia o que fazer. Porque, de repente, a vida colocou-me perante uma coisa que devia ser tão simples. O meu tio morreu. A minha família precisa de estar junta. Eu preciso de estar com a minha família. E não consigo. Não consigo simplesmente entrar num carro e ir ter com eles. Não consigo simplesmente estar presente. Não consigo fazer aquilo que, numa altura destas, me parece tão básico. Estar.

Depois de horas a pensar no assunto, decidi que não podia ir. E continuei a limpar. Continuei a varrer o chão, porque o aspirador tinha avariado de vez. Enquanto chorava. Agora a pensar no meu tio. O último de uma geração de gente boa. Doce como o pôr do sol num dia de verão. Como o amanhecer das planícies alentejanas.  O meu tio que me recebia sempre tão bem. Naquela casa de compartimentos pequenos e acolhedores, onde havia sempre espaço para mais alguém. Onde me sentia bem. Onde havia uma tranquilidade que hoje me custa tanto não poder procurar.

O meu tio que gostava de escrever. O único da família que sempre teve essa paixão pelas letras. Lembro-me de um dia em que me chamou para uma salinha pequena lá de casa. Eu tinha entrado em Jornalismo. E ele quis mostrar-me uns pequenos recortes de jornais para os quais tinha escrito quando era novo. Guardava-os. E quis partilhá-los comigo. Quis mostrar-me uma parte da sua história. E, ao fazê-lo, deu-me a conhecer também uma parte da minha. Falou-me da nossa família mais antiga. De pessoas que eu não conheci. De histórias que vieram antes de mim. De uma vida que, de alguma forma, também me pertence.

E eu fiquei a pensar se talvez a minha paixão pelas letras viesse do mesmo sítio que a dele. Não sei. Talvez. A única coisa que sei é que há muito tempo pensava ligar-lhe. E não liguei. Há muito tempo que não o via e pensava visitá-lo. E não fui. E agora já não vou poder ir. E esta é uma culpa que vou carregar comigo. Juntamente com o seu olhar doce. A sua voz baixa e suave. O seu sorriso acolhedor.

A culpa de ter deixado passar dias. Semanas. Meses. Anos. De ter pensado tantas vezes que tinha de lhe ligar, que tinha de o visitar, que tinha de arranjar tempo. E de não o ter feito. Há coisas que achamos que ainda vamos a tempo de fazer. Uma chamada. Uma visita. Um abraço. Um almoço. Mas vamos adiando porque a vida está complicada. Porque há trabalho. Porque há filhos. Porque há uma separação. Porque há contas para pagar. Porque estamos cansados. Porque amanhã será um dia melhor.

E, de repente, o amanhã deixa de existir para aquela pessoa. E ficamos nós com tudo aquilo que não fizemos. Onde quer que esteja, levarei sempre um pedaço dele comigo. E, de certa forma, espero que isso se sinta aqui. Neste espaço onde escrevo. Onde me dispo. Onde me exponho. Onde tento encontrar palavras para aquilo que, tantas vezes, não sei sequer explicar.

Escrevo. Com a mesma paixão que acredito que ele tinha. Com a mesma vontade de contar histórias. De guardar memórias. De deixar qualquer coisa de nós nas palavras que escolhemos. E talvez esta seja uma forma de o manter perto. Talvez, de alguma maneira, este texto seja também uma forma de lhe dizer aquilo que não lhe disse em vida.

Que gostava muito dele. Que tenho pena de não o ter visto mais vezes. Que gostava de ter tido mais tempo. Que vou sentir a sua falta. E que espero que, onde quer que esteja, saiba que deixou qualquer coisa de muito bonito em mim.

Entretanto, os meus filhos estavam quase a chegar. Lavei a cara. Esbocei um sorriso. E recebi-os de braços abertos. Entre gritos e excitação, abraçaram-me os dois. No chão. Deram-me o abraço que estive todo o dia à espera. O abraço que eu precisava de receber da minha mãe. Dos meus avós. De alguém que soubesse o que tinha acontecido. E foram eles que mo deram. Sem saberem. Sem saberem que a mãe tinha passado a tarde a chorar. Sem saberem que o tio da mãe tinha morrido. Sem saberem que a mãe queria tanto estar noutro lugar.

Abraçaram-me e, por uns instantes, senti-me exatamente onde precisava de estar. Com eles. E a vida continuou. Como se nada tivesse acontecido. Jantámos os três. Dei-lhes banho. Brincámos. Vimos parte do jogo da seleção. Adormeci-os. Fiz aquilo que faço todos os dias. Porque os meus filhos precisavam de jantar. Precisavam de tomar banho. Precisavam de brincar. Precisavam da mãe. E a mãe continuou. Mesmo quando, por dentro, só queria parar. Depois, deixei-me ficar no meio deles. Na cama. A ouvi-los respirar. E só aí voltei a chorar. Porque, finalmente, já não precisava de sorrir. Já não precisava de fingir que estava tudo bem. Já não precisava de ser a mãe que consegue fazer tudo, mesmo quando sente que não consegue mais. E desejei poder estar mais perto da minha família. Do meu tio. Da minha mãe. Dos meus avós. De todos aqueles que, naquele momento, estavam a viver a mesma perda que eu, mas sem mim.

E talvez seja isso que mais me custa nesta fase da minha vida. Não é apenas estar longe. É perceber que há momentos em que a distância deixa de ser uma questão de quilómetros. Passa a ser uma impossibilidade.

É querer estar num funeral e não conseguir. É querer abraçar a mãe e não poder. É querer chorar com os avós e ter de esperar que os dias passem. É saber que as pessoas de quem mais precisamos estão a viver um momento que também é nosso e não podermos estar lá. É perder momentos que nunca mais voltam. E é perceber que, enquanto tento proteger os meus filhos da distância do pai, há momentos em que sou eu que fico longe de quem mais preciso.

Eu sei que fui eu que tomei a decisão de ficar. Sei que há razões para isso. Sei que os meus filhos precisam do pai. Mas também sei que, às vezes, uma decisão pode fazer sentido e, ainda assim, doer imenso. Podemos acreditar que estamos a fazer o melhor que conseguimos e, mesmo assim, sentir que estamos a perder partes da nossa própria vida.

Podemos amar os nossos filhos acima de tudo e sentir falta da nossa família de uma forma que quase não conseguimos explicar. Podemos estar gratos por aquilo que temos e, ao mesmo tempo, chorar por tudo aquilo que não podemos ter. E podemos ser fortes durante o dia inteiro e desabar quando finalmente ninguém está a olhar.

O meu tio morreu. E eu não consegui estar lá. Não consegui abraçar quem precisava de abraçar. Não consegui despedir-me dele. Não consegui estar junto da minha família num dos momentos em que mais precisava de sentir que fazia parte dela.

E amanhã a vida vai continuar. Vou acordar. Vou preparar os meus filhos. Levá-los à escola. Vou trabalhar. Vou fazer o jantar. Vou tratar das coisas que tenho para tratar. E, algures pelo meio, vou lembrar-me de que o meu tio já não está cá. Vou lembrar-me de que devia ter ligado. De que devia ter ido visitá-lo. De que devia ter aproveitado mais o tempo que ainda tinha. E vou tentar aprender a viver com isso.

Mas, se há alguma coisa que esta perda me ensinou, é que há momentos em que não precisamos de mais força. Precisamos de colo. Precisamos de família. Precisamos de poder estar onde o coração nos pede para estar, sem ter de fazer contas aos quilómetros, ao dinheiro, aos horários, aos filhos, aos comboios ou a tudo aquilo que a vida nos exige.

Porque há dores que não deviam ser vividas sozinhas. E há despedidas que não deviam acontecer à distância. O meu tio morreu. E eu só queria ter podido estar lá.

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