As saudades são bonitas. Mas eu preferia não as sentir.

(há coisas que explicamos aos nossos filhos com palavras bonitas, só para tentar tornar menos doloroso aquilo que nunca devia ter de lhes doer)

No sábado levei os meus filhos a uma festa. Brincámos imenso. Houve insufláveis, pinturas faciais, balões, futebol, desenhos, uma amiga por perto, gelados. Houve corridas, gargalhadas, mãos pequeninas a puxar-me para ver mais uma coisa, mais uma brincadeira, mais qualquer coisa que não podia esperar. Um dia em cheio. Daqueles em que chegamos a casa cansados, mas com o coração a transbordar amor.

No domingo passaram o dia com o pai e regressaram ao final da tarde. Fizemos um piquenique no chão da sala, enquanto víamos o jogo de Portugal. E eu não podia ter pedido melhor companhia para assistir ao jogo. Estavam ali os meus dois rapazes, a vibrar com cada lance, a festejar os golos, a fazer da nossa sala o melhor lugar do mundo. Foi mesmo muito bom.

Depois do intervalo fui prepará-los para dormir. E avisei o meu filho mais velho de que nos dois dias seguintes ia dormir a casa do pai. Continuou a lavar os dentes. Continuou a festejar a vitória da seleção. Não disse nada. Não pareceu haver ali grande assunto. Até que, passado um bocado, veio ter comigo.

– “Mãe, amanhã podes-me ligar?”

– “Posso, filho, claro. E tu também podes ligar à mãe sempre que quiseres”.

– “E na terça? Também me podes ligar?”

Repeti-lhe a resposta. Claro que podia. Claro que nos podíamos ligar. Claro que a mãe estava sempre ali. E foi então que me disse:

– “Eu quero que me ligues porque quando estou com o pai tenho muitas saudades da mãe”

E eu abracei-o. Abracei-o e disse-lhe aquilo que lhe digo sempre. Que as saudades são uma coisa boa. Que significam que gostamos muito uns dos outros. Que só temos saudades de quem amamos. Que só há saudades onde há amor. E que aqui, e naquela casa, entre nós, há muito amor. Tentei embelezar uma coisa que, na verdade, de bonito tem muito pouco. Ou talvez tenha. Talvez as saudades sejam mesmo uma das formas mais bonitas de percebermos o quanto alguém nos faz falta. Talvez seja bom sabermos que somos amados assim. Que fazemos falta. Que há alguém que, mesmo longe, pensa em nós e deseja o nosso colo. Mas não era isso que eu queria que o meu filho estivesse a aprender aos cinco anos.

Não queria que precisasse de aprender a transformar a ausência em palavras bonitas. Não queria que tivesse de encontrar uma explicação para a falta que lhe faço. Não queria que tivesse de se habituar a sentir saudades de mim quando está com o pai. E, no entanto, ele começa a perceber. Começa a perceber como funciona esta vida. Os dias em que está comigo. Os dias em que está com o pai. As noites em que adormece num colo e as noites em que adormece noutro.

Começa a perceber que, quando está num sítio, o outro continua a existir. Que pode estar a divertir-se, a brincar, a rir, a gostar do tempo que passa com o pai e, ainda assim, sentir a falta da mãe. E talvez seja isso que mais me custa. Saber que pode estar feliz e ter saudades ao mesmo tempo. Que uma coisa não anula a outra. Que pode gostar de estar com o pai e querer estar comigo. E vice-versa. Que não tem de escolher um sentimento, nem de o esconder para proteger outro.

Depois de me dizer aquilo, não voltou a falar do assunto. E eu também não. Em vez disso, contei-lhe uma história. Deixei-me adormecer entre ele e o irmão, com um braço de cada lado, à volta de cada um daqueles dois corpos pequeninos. E fiquei ali. A pensar na falta que também me fazem quando não estão. Na falta que me faz ouvir os seus passos pela casa, as perguntas sem fim, as pequenas interrupções, as coisas que só eles dizem e que mais ninguém diria daquela maneira.

A pensar que aquilo que lhe disse pode até ser verdade. Que as saudades nascem do amor. Que há qualquer coisa de bonito em sabermos que fazemos falta a alguém. Mas que, se pudesse escolher, preferia que não tivesse de sentir saudades minhas assim. Preferia que pudesse ter a mãe e o pai sem que isso significasse ter de passar dias sem um deles. Preferia que não tivesse de aprender tão cedo a gerir a falta, a contar os dias, a perguntar se amanhã pode ligar, se na terça também pode ligar. Preferia que não tivesse de pensar nisso. Porque, definitivamente, nenhum filho desta idade devia ter de sentir saudades de um colo que é seu. De um colo que está disponível, que o ama, que o espera, mas que, naquele momento, não está ali.

E também nenhum bom pai ou boa mãe devia ter de passar por isto. Nenhum pai ou nenhuma mãe devia ter de ouvir um filho perguntar se lhe pode ligar amanhã. E depois na terça. Porque já está a antecipar as saudades. Nenhum devia ter de ouvir da boca de uma criança tão pequena que ela sente a sua falta quando está com o outro progenitor.

Não porque o outro não seja importante. Não porque não queira que os meus filhos sejam felizes com o pai. Não porque não saiba que também precisam dele. Mas porque ouvir isto mexe connosco. Mexe num lugar que não sabemos bem como explicar. Num lugar onde não há argumentos, nem acordos, nem horários que nos valham. Num lugar onde somos apenas mães. E pais. Onde ouvimos o nosso filho dizer que tem saudades nossas e só queremos poder abraçá-lo até que deixe de as ter.

E não é bom. Não é bom saber que ele sente a minha falta. Não é bom imaginar que, quando eu não estou, pode haver momentos em que queria estar comigo e não pode. Não é bom perceber que, por mais que lhe diga que pode ligar, uma chamada não é um abraço. Que ouvir a voz da mãe não é o mesmo que ter a mãe ali.

E não há explicação bonita que mude isso. Há coisas que os adultos conseguem compreender. Que uma separação acontece. Que há duas casas. Que há horários, rotinas, dias combinados. Que os pais continuam a amar os filhos, mesmo quando já não vivem juntos. Mas uma criança não devia ter de encontrar sentido em tudo isto. Não devia ter de aprender que o amor também se vive à distância. Que se pode amar alguém e não o ter por perto. Que se pode querer colo e ter de esperar pelo dia seguinte. Não devia ter de ser tão crescida para perceber uma coisa que, mesmo para nós, continua a doer tanto.

E talvez seja por isso que lhe digo que as saudades são bonitas. Porque quero que saiba que não há nada de errado em sentir aquilo que sente. Que não tem de ter vergonha de ter saudades da mãe quando está com o pai. Que não está a magoar ninguém por querer estar comigo. Que pode dizer que tem saudades minhas, que pode chorar, que pode querer o meu colo. E vice-versa.

Que eu vou sempre ouvi-lo. Mas, se pudesse, poupava-o a isso. Não às saudades de quem ama. Essas fazem parte da vida. Não podemos prometer aos nossos filhos que nunca vão sentir a falta de alguém. Poupava-o a estas saudades. Às saudades que vêm de uma vida que não escolheu. Às saudades de uma mãe que não morreu, que não foi embora, que continua ali, a poucos quilómetros, mas que não pode estar presente em todos os dias, em todas as noites, em todos os momentos em que ele precisa dela.

E poupava-me também a mim. Porque nenhuma mãe devia ter de aprender a viver com a falta dos filhos. Nenhuma mãe devia ter de se deitar numa cama sem eles e saber que, naquele momento, há um abraço que não pode dar. Nenhuma mãe devia ter de se habituar a ouvir estas palavras e a responder com toda a serenidade do mundo, quando por dentro só lhe apetece dizer que também tem saudades. Que também custa. Que também queria que fosse diferente.

Mas não digo. Porque ele não precisa de carregar as minhas saudades também. Precisa de saber que pode sentir as dele. Que pode amar o pai e a mãe. Que pode estar bem numa casa e sentir falta da outra. Que não tem de cuidar dos sentimentos dos adultos. E eu preciso de continuar a dizer-lhe que está tudo bem. Mesmo quando não está.

Naquela noite, adormeci entre os dois, com um braço à volta de cada um. E fiquei a pensar que talvez um dia as saudades sejam mesmo só isso. Uma coisa bonita. Uma forma de medir o amor, de percebermos o lugar que alguém ocupa na nossa vida. Mas agora, para ele, são também uma pergunta: “Mãe, amanhã podes-me ligar?”. E eu posso. Posso ligar-lhe amanhã. E na terça. Posso dizer-lhe que o amo, que tenho saudades, que estou aqui. Só não posso estar lá. E, por muito que lhe explique que as saudades são bonitas, há uma coisa que sei. Se pudesse passar-lhe esta dor para mim, passava. Se pudesse fazer com que nunca tivesse de sentir a falta de nenhum de nós, fazia. Porque ele é tão pequenino. Porque não escolheu esta vida. Porque não devia ter de aprender a viver com a ausência de quem ama antes sequer de saber bem o que fazer com ela.

As saudades são bonitas, filho. Mas eu preferia, de coração, que não tivesses de as sentir assim.

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